Jeanne Marie Penvenne

22.05.2017, 10h – Auditório B, Reitoria da Universidade Nova de Lisboa

A imprensa colonial portuguesa: silêncios, fragmentos e falsos firmamentos

Nos últimos quarenta anos, os investigadores têm vindo a enriquecer de forma considerável a bibliografia sobre jornais e revistas coloniais portugueses. Eles mapearam inúmeras publicações, colocando-as no tempo e no espaço e, quando possível, identificando os seus fundadores, promotores e genealogias. Os historiadores demarcaram os jornalistas e intelectuais como personalidades fundamentais da vida política e cultural. Recuperaram histórias familiares e sociais a partir da cobertura dos rituais sociais que acompanham os casamentos, os nascimentos e as mortes. Há muito a celebrar neste instigante trabalho de escavação e reconstituição, mas os silêncios, os fragmentos e os falsos firmamentos são igualmente impressionantes.Devido ao meu interesse no pleno potencial da imprensa, falarei da minha investigação atual sobre famílias urbanas e história social, mas também irei focar as implicações dos silêncios, dos fragmentos e dos falsos firmamentos que indiquei no subtítulo da minha conferência.

Em primeiro lugar, a imprensa colonial enquadra claramente conversas entre homens. As mulheres, sobretudo as mulheres africanas, são basicamente ausentes, ignoradas e silenciosas. Embora os historiadores tenham cada vez mais consciência de que as mulheres conhecem e contam as suas histórias de maneira fundamentalmente diferente dos homens, mas esse é um olhar incompleto sobre a sua história. Em segundo lugar, as conversas entre homens nos jornais são muitas vezes fragmentos, por isso, parcialmente silenciosas. Como nos lembra Naipaul, “os jornais em pequenos contextos coloniais contam um tipo de verdade muito especial, deixando de fora muitas coisas importantes –com frequência essenciais – que as pessoas saberiam e sobre as quais mexericariam”1. Ler de uma maneira que nos permita ligar o que está dito ao que está silenciado é um desafio importante. Em terceiro lugar, e de forma impressionante, a imprensa colonial projetou falsos firmamentos ao longo da sua história, mas em particular, o discurso da imprensa do colonialialismo português tardio enquadrou grandes partes da África continental como simples províncias da Metrópole e, em consequência, no firmamento do império ultramarino português e sua influência. Este falso firmamento que abrigou os colonos e a população metropolitana, preparou-os para a completa decepção com a dissolução do império sequente à revolução de 1974.

Quem escreveu na imprensa, para quem, sobre quem e por que? O que revelam os jornais através da prática do close reading? O que os consumidores de jornais coloniais retiravam das notícias, dos anúncios e das fotografias?

Trata-se de fontes ricas, multifacetadas e complexas. Ainda temos muito a aprender com elas.

– V.S. Naipaul, Bend in the River (New York: Vintage 1979).

Jeanne Marie Penvenne. Professora de História, Relações Internacionais e ““Africana Studies”, da Tufts University, Medford Massachusetts. Doutorada pela Universidade de Boston, é especialista em História de África, História do Trabalho e Estudos de Género. Tem sido distinguida com numerosos prémios pelas suas actividades como Professora e Investigadora na Universidade de Tufts e tem sido Professora Convidada da Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique. A sua obra mais recente é Women, Migration and the Cashew Economy of Southern Mozambique, 1945 to 1975 (2015). Outras publicações incluem “Learning from Jill Dias: Press, Photography and People.” in Maria Cardeira da Silva and Clara Saraiva (coords), Jill Dias’ lessons in Anthropology, History, África, Academy. Centro em Rede de Investigação em Antropologia (2013); “Fotografando Lourenço Marques: A Cidade e os seus Habitantes de 1960 a 1975” in Os Outros da Colonização: Ensaios sobre Tardo-colonialismo em Moçambique. Edited by Claúdia Castelo, Omar Ribeiro Tomaz, Sebastião Nascimento e Teresa Cruz e Silva. Lisbon: Imprensa de Ciências Sociais, 2012; ‘Two Tales of a City – Lourenço Marques, 1945-1975,” Portuguese Studies Review; Special Issue in Honor of Jill R. Dias. 19, 1-2 (2011): 249-269.

%d bloggers like this: