Leopoldo Amado, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (Guiné Bissau)

25.05.2017, 09.30-10.50, Biblioteca Nacional de Portugal

Uma análise diacrónica das narrativas imprensa Colonial: o caso da Guiné Portuguesa

Apesar de ser pouco estuda e, por isso mesmo, pouco conhecida, a imprensa colonial jogou aqui e acolá, um papel de primeira importância como veículo de transposição biunívoca do imaginário social dominante, designadamente, na relação entre o establishement e os povos colonizados e na reprodução ideológica dos fundamentos da dominação colonial. Com efeito, reforça-se ainda a aludida importância se se tiver em consideração que a imprensa colonial – longe de pretender ser uma espécie de caixa de pandora da imprensa metropolitana –, procurava erigir-se por um dinamismo emergente dos trópicos, tanto é que já não é a partir da metrópole, mas dos trópicos, que se procura afinar o diapasão da vida colonial retratada, eivadas estas, curiosamente, de interações e intersecções advindas dos espaços de confluência e de confronto entre mundividências em presença, ou seja, entre colonos dominadores e colonizados dominados.

Com efeito, e apesar da intensa actividade da imprensa colonial contrastar flagrantemente com a quase situação de marginalidade a que foi votada o território de então (nunca a Guiné foi projectada como uma colónia de povoamento, à semelhança de Angola ou Moçambique), a Guiné colonial foi fértil em actividade ligada à imprensa, assinalando-se-lhe, sintomaticamente, a existência de jornais e revistas de qualidade insuspeita, com uma relativa constância editorial e consequente longevidade que, curiosamente – não obstante terem-se pautado pelo exotismo exacerbado, próprio, portanto da ideografia colonial então vigente, alinharam-se também, editorialmente falando, com os ditames ideológicos que conformavam a colonização –, mas transpondo largamente os limites da cegueira superioridade racial para vislumbrar outras dinâmicas do encontro/confronto civilizacionais, mormente, as dinâmicas culturais subjacentes às sociedades colonizadas, procurando assim, aqui e acolá, romper com uma narrativa que, amiúde, contrariava a própria panaceia do bom selvagem e da missão civilizadora colonial.

São estes poisos que consubstanciam, basicamente, o objecto de análise diacrónica que se procurará desenvolver na presente comunicação, na qual igualmente se procura, pela via do estabelecimento paralelismos comparativos com outras situações coloniais, a visão subjacente do africano, a par de uma inteligibilidade explicativa relativamente a inequívoca opção, por parte por parte da intelligentsia de então, por uma imprensa a que, pelas razões aduzidas e, na falta de melhore qualificativo, poderíamos justamente designar como a de uma portugalidade dos trópicos.

Leopoldo Amado (Guiné Bissau, 1960) é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, pós-graduado em Relações Internacionais (Estudos Islâmicos) pela Universidade Internacional de Lisboa, mestre em Estudos Africanos pelo Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, doutorado em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa e pós-doutorado em Ciência Política pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Foi investigador senior do INEP, consultor nacional e internacional em matéria de gestão de projectos e planificação estratégica, correspondente e comentador político de diversos órgãos de informação estrangeiros. Desempenhou funções em diversos organismos internacionais, designadamente, entre 1995 e 200, Director do SPHAC – Projecto da UNESCO para a Salvaguarda do Património Histórico da África Contemporânea. Tem leccionado em universidades em Portugal, Espanha, Cabo-Verde, EUA. Autor de inúmeras publicações, dos quais se destacam artigos e livros sobre a Guiné-Bissau, Leopoldo Amado é desde 2015 o novo Director-Geral do INEP – Instituo Nacional de Estudos e Pesquisa.

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