P01 – Imprensa periódica colonial em contexto imperial: abordagens teorizadoras

22.05.2017, 11.30, Auditório B, Reitoria da UNL Campolide

Organização do Congresso

Resumo: O painel é iniciativa da Organização do Congresso abrigada pelo Grupo Internacional de Estudos da Imprensa Periódica Colonial do Império Português, sendo impulsionado por um debate interno sobre o entendimento de “imprensa periódica colonial”, em contexto “imperial”. Debate indesligável da necessidade de reflectir sobre o sentido de um grupo internacional constituído com os fins propostos. Prevalece no grupo a ideia de ser o império a realidade política que ao conectar espaços, povos e indivíduos no passado ainda os conecta no presente, pela abundante ligação entre as histórias locais e globais cujos traços se encontram impressos em arquivos materiais e imateriais, património de cada povo mas igualmente virtualmente comuns.

Entendemos que o “mundo colonial” que gerou, à semelhança do ocorrido em impérios congéneres e em diálogo com estes, genericamente se contruiu na tensão entre colonialismo e anticolonialismo, nas diversas formas em que se foram objectivando e teorizando. Nesse caso, não é a ideia de colónia mas de colonial, apontando realidades ligadas por relações desiguais e modeladas pela existência dessas relações, que alimentou o debate e acção transformadores. Decorre que integremos a metrópole, com a sua posição hegemónica, como elemento do mundo colonial, modelando-o e sendo por ele modelado. Infere-se que “colonial” é entendido como conceito sujeito à temporalidade das ideias, e que configura as suas associações compostas. É o caso de imprensa periódica colonial, que se distingue pelas implicações geográficas, temáticas e de agenciamento transportadas pelo conceito “colonial” e que, na verdade, constitui agente dinâmico de afirmação, percepção e fluir do “mundo colonial”.

Prosseguir o debate em torno deste esforço teorizador constitui o objectivo deste painel. Entre outras questões que gostaríamos de ver discutidas, sobressai se toda a imprensa publicada nas colónias ou na metrópole pode ser considerada colonial. Constituindo a imprensa elemento essencial de construção da esfera pública e da opinião pública, interessa-nos ainda interrogar como abordá-las na encruzilhada das dinâmicas entre o local, o intercolonial e o imperial.

Palavras-Chave: Imprensa Periódica Colonia; Império Colonial; Colonial; Opinião Pública; Esfera Pública


1. Comissão Organizadora

Imprensa periódica colonial em contexto imperial

Nesta comunicação exporemos inquietações persistentes e pontos de chegada teóricos, associados ao processo de constituição e consolidação programática do Grupo Internacional de Estudos da Imprensa Periódica Colonial do Império Português (GIEIPC-IP). Aquando da decisão do nome e sigla do grupo, aparentemente desastrosa do ponto de vista comunicacional, fomos alertados para o risco de gerar anticorpos por os conceitos “colonial” e “império” poderem soar a resquícios “colonialistas” e “imperialistas”, e por os impormos a períodos e a geografias de aplicação problemática. Se a curta história de constituição do Grupo e este Congresso desdramatizam tais apreensões, não apagam a necessidade de continuar a problematizar e debater este núcleo conceptual e os diversos elementos da designação do grupo. Motivados por esta convicção, a própria ideia de “grupo internacional” será discutida, associada ao desiderato de explorar as possibilidades de construção democrática de narrativas sobre passados políticos e culturais comuns e diversos, às suas implicações “patrimoniais” e, ainda, ao modo como os diversos pontos de vista que o podem informar afectam a modelagem do corpo conceptual em que se estrutura.

 Palavras-Chave: GIEIPC-IP; Imprensa periódica colonial; Colonial; Império;


2. Francisco Soares, Universidade de Évora, Portugal

O Boletim da LNA, charneira entre a literatura local e a dos ‘negros’

A constituição da Liga Nacional Africana, imediatamente após a assinatura do Ato Colonial, foi a resposta do momento que a elite urbana local deu ao repto lançado pelo projeto salazarista em constituição. O seu Boletim refletiu, desde o início até ao fim, a circunstância inicial. Através dele a LNA reestruturou as autorrepresentações literárias dos filhos da terra enquanto negros, consagrando o realinhamento processado ao longo das duas décadas anteriores. O Boletim, embora discretamente, marcou também a tímida passagem literária do século XIX para o século XX e respetivo realinhamento temático. As novas gerações nacionalistas, não reagiram só à imprensa colonial, mas também à postura tática da LNA e à literatura correspondente com a sua literatura de combate aberto contra o colonialismo e pelo socialismo.

Disso me proponho dar conta na Comunicação. Pretendo, sobretudo, contribuir para debatermos o “papel da imprensa na formação de literaturas locais e de culturas literárias”. O Boletim da Liga e a respetiva produção literária serão também campos privilegiados para se refletir sobre “colonialismo e anticolonialismo na imprensa colonial”, uma vez que se trata de um projeto não colonial estrategicamente inserido num projeto colonial mais vasto. Essa particular transitoriedade da LNA e do seu Boletim nos obrigam, também, a testar o conceito de “Imprensa colonial”, que é outro dos objetivos explícitos do Congresso.

Palavras-Chave: Literatura, África, filhos da terra, negros


3. Rocío Ortuño Casanova, Universiteit Antwerpen, Bélgica 

 Uma proposta metodológica para o estudo e a preservação da imprensa colonial do século XXI: as Humanidades Digitais na abordagem da evolução da imagem de Espanha nos jornais filipinos entre 1880 e 1920.

Nos últimos dez anos, o desenvolvimento das Humanidades Digitais tem permitido aos investigadores, por um lado, adquirir uma perspetiva mais ampla no estudo das conexões transnacionais; por outro, preservar e colocar em linha materiais em risco de deterioramento físico, ou que costumavam ser pouco acessíveis ao vasto público. Com base no caso da imprensa colonial filipina, e na perspetiva de diversos jornais publicados entre 1880 e 1920, este artigo propõe exemplos e potencialidades do estudo à distância e em proximidade na construção da diferença dos países outros, envolvidos direta ou indiretamente nas relações coloniais e pós-coloniais entre as Filipinas e a Espanha. Ao utilizarmos técnicas de text mining, a análise de sentimentos, a criação de uma base de dados para definir os campos políticos e culturais, e as técnicas de topic modelling, iremos explorar a evolução das atitudes em relação a velhos e novos colonizadores em periódicos em língua espanhola.

As idéias gerais que enquadram este estudo são: 1. Que os diferentes repositórios on-line da imprensa colonial que estão sendo criados permitem novas metodologias para responder a perguntas ambiciosas; 2. Que os resultados da leitura distante podem fundamentar algumas suposições anteriores; e 3. Que este tipo de método misto, baseado na análise quantitativa e qualitativa, irá permitir estabelecer comparações sobre a construção do sentimento nacional e a evolução do mesmo em antigos territórios coloniais distintos.

Palavras-Chave: Relações transnacionais, Imprensa periódica filipina, humanidades digitais, construção de imagem, construção nacional, campo cultural.

(por motivos imprevistos não estará presente)


4. Aquiles Alencar Brayner. British Library, Biblioteca Nacional do Brasil, Brasil

Acervo Afro-Brasileiro da BN Digital: criação e disseminação de coleções iconográficas a partir de imagens publicadas em periódicos do século XIX.

A apresentação tratará dos conceitos e modelos desenvolvidos na área de Curadoria Digital aplicados a periódicos digitalizados do século XIX, tendo como foco os processos de criação, disseminação, acesso e reuso dos conteúdos disponibilizados na Hemeroteca Digital da Fundação Biblioteca Nacional. A atuação prática em Curadoria Digital será exemplificada pelo projeto de criação do acervo iconográfico digital afro-brasileiro da BN, seguindo então as diretrizes de publicação e reuso de imagens de instituições de memória cultural em plataformas abertas tais como Flickr e Wikimedia Commons, com o objetivo de disseminar acervos e fomentar a participação pública na descrição, interação e reapropriação dos conteúdos eletrônicos nos repositórios de instituições de memória cultural, possibilitando novas leituras e a estes conteúdos por diversas linhas de pesquisadores e diferentes grupos de usuários. Além de descrever os processos e metodologias na área de Humanidades Digitais, tais como extração e publicação automatizadas de imagens de periódicos digitalizados, a apresentação descreverá também a importância de atividades de crowdsourcing na formação de novos acervos, taxonomias e propostas de pesquisas em hemerotecas digitais.


BIOGRAFIAS


Aquiles Alencar Brayner 

Francisco Manuel Antunes Soares 

Rocío Ortuño Casanova é doutorada desde 2010 pela Universidade de Manchester com uma tese sobre a poesia espanhola da geração de 27. Desde 2011, a sua investigação tem vindo a centrar-se na literatura das Filipinas e nos estudos de literature comparada. Foi docente na Inglaterra e nas Filipinas. É diretora científica do portal de literature filipina em espanhol alojado no site da Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes. Atualmente, trabalha como assistente doutorada na Universidade de Antuérpia e colabora com três grupos de pesquisa na Espanha: “ALTER: Crisis, otherness and representation” na Universitat Oberta de Catalunya (Barcelona); “Humanismo-Europa” na Universidade de Alicante, e o projeto internacional “EDI-RED: Editores y editoriales iberoamericanos, ss. XIX-XXI” led by CSIC (Centro Superior de Investigaciones Científicas).

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