P03 – O papel da Imprensa periódica nas transições do colonialismo para o período pós-colonial

22.05.2017,14.30-15.50, Auditório 2, Torre B, FCSH-UNL

Joana Passos – CEHUM, Universidade do Minho, Portugal

Pamila Gupta – WiSER University of the Witwatersrand, Africa do Sul

Resumo: No painel proposto pretende-se discutir a forma como a imprensa periódica acompanhou e, inclusivamente, influenciou vários processos de descolonização durante o século XX. Por um lado pretende-se comparar sintonias entre a imprensa de vários territórios colonizados por Portugal. Por outro lado, achamos relevante extravasar as fronteiras de antigos mapas imperiais e relacionar diferentes processos de descolonização em territórios com afinidades regionais. Em terceiro lugar, pretende-se analisar, na imprensa da época, o confronto entre diferentes linhas editoriais, as quais disputavam diferentes modelos de colonização ou de descolonização. Pelo estudo destas dissonâncias expõem-se os interesses de diversas poderes então instituídos, projectando, nos dias de hoje, quer cicatrizes históricas quer alianças políticas entre povos.

Palavras-Chave: Imprensa colonial, imprensa e auto-afirmação nacional, descolonização, diálogos internacionais


1. Pamila Gupta, WiSER University of the Witwatersrand, África do Sul

‘What About Goa?’ o papel da imprensa e a política da independência, 1947-1961

‘What about Goa?’(Souza, 1957) foi uma questão que provocou inúmeras explosões em muitas partes do mundo no período entre a independência da Índia da Grã-Bretanha em 1947 e a integração de Goa no Estado-nação indiano em 1961. Nesta comunicação, interrogo o papel da imprensa na produção e circulação de múltiplos discursos sobre este tópico. Argumentando que a imprensa serve como uma técnica moderna da “arte de governar” (Foucault, 1991) que opera na conjuntura do Estado e da sociedade, pretendo explorar as maneiras pelas quais dois Estados-nação (Portugal e a Índia) utilizaram a imprensa para certos fins políticos, ou seja, para expressar seus pontos de vista, ao mesmo tempo em que usaram esse espaço para criar uma opinião pública para essas mesmas visões.

Centrando a minha análise no “problema de Goa”, irei comparar o uso que Portugal fez da imprensa internacional para promover explicitamente a continuação (desejada) da sua posição de soberania em Goa com a confiança da India na sua própria imprensa para promover o seu interesse na libertação de Goa da opressão colonial portuguesa. A minha análise revelará não apenas que esta arena de disputa haveria de ter implicações para o nacionalismo e a descolonização em todo o mundo, mas que resultou sobretudo de preocupações locais, nomeadamente, o debate sobre o futuro de Goa enquanto parte da Índia ou de Portugal. A minha análise da imprensa demostra também de que modo a pós-colonialidade pode ser moldada por diferentes colonialismos e nacionalismos.

Palavras-Chave: Goa, Índia, colonial, imprensa internacional


2. Joana Passos, Universidade do Minho, Portugal     

Um duplo imaginário na Goa colonial: entre renascimento e apropriação

Nesta comunicação irei comparar dois periódicos goeses, a saber, a “Revista da India” (1913-1914), e “Luz do Oriente” (1907-1920). As visões contrastantes expressas por estas duas publicações goesas irão permitir mapear formas diferentes de investimento na voz pública, que atingiram ramificações internacionais, tanto no Ocidente quanto no resto do subcontinente indiano, manifestando uma tensão local que reflectia a complexidade diplomática do processo de descolonização em Goa.

Palavras-Chave: Imprensa colonial; auto-afirmação; intercâmbio cultural


3. Sushila Sawant Mendes, Government College of Arts,Science & Commerce, Quepem, Goa (Affiliated to Goa University), Goa, Índia

O “Tri-Conglomerado” de Assolna, Velim e Cuncolim: Vozes rebeldes em ‘Gomantak’ e ‘Goan Tribune’

Assolna, Velim e Cuncolim são vilas do Sul de Goa onde a comunidade católica se impôs sobre os Kshatriya (casta de militares). A revolta de 1583 (na qual foram massacrados 5 jesuítas e 5 civis) transformou-as num tri-conglomerado baseado numa cultura militante. Os portugueses negaram aos locais os cargos administrativos; confiscaram as suas terras e ostracizaram-nos desencorajando os casamentos com “os criminosos”. Hoje em dia, quase todas second house têm na sua história homens empregados em navios ou emigrantes, e os casamentos aconteceram entre habitantes das três vilas. Esta terra de combatentes pela liberdade produziu profissionais que usaram a imprensa para expresser a sua dissidência. Esta comunicação pretende abordar o papel de dois jornais, a saber, o semanário ‘Gomantak’, 1939-49 (dirigido por um periódo pelo meu pai, o advogado Louis Mendes), e o quinzenário ‘Goan Tribune’, 1956-61 (dirigido por Lambert Mascarenhas, entre outros), os quais providenciaram uma plataforma para estas vozes rebeldes.

Palavras-Chave: Goa, imprensa de auto-afirmação nacional, Luta de libertação


4. Omar Ribeiro Thomaz, Unicamp, Moçambique

Arquivo, agente colonial e sujeito revolucionário: a imprensa em Lourenço Marques entre 1974 e 1975

Entre abril 1974 e a independência política de Moçambique, em junho de 1975, os órgãos de imprensa em Lourenço Marques e na Beira assumiram não apenas passaram por uma extraordinária e rápida transformação como foram protagonistas de um processo de mudança que nem sempre foi evidente. Nos dias que se seguiram ao 25 de abril em Portugal, nas páginas do jornal Notícias de Lourenço Marques, do Diário de Moçambique da Beira ou da revista Tempo fica evidente a atuação de novos grupos políticos que, como os “Democratas de Moçambique”, assumiram o papel não apenas de informar os moçambicanos o rumo dos acontecimentos como de prepará-los para a realidade de um novo país que deveria ser efetivamente africano. As notícias que chegavam da metrópole competem de forma crescente com páginas sobre a Zâmbia ou sobre a Tanzânia e ganham cada vez mais espaço figuras até então desconhecidas ou atemorizantes para as populações urbanas, como Samora Machel, Marcelino dos Santos, Joaquim Chissano e tantos outros combatentes. A FRELIMO passa de organização terrorista a Movimento de Libertação e prepara-se os passos para o período de transição que seguem os violentos meses de setembro e outubro de 1974.

Neste ensaio enfrentaremos a imprensa moçambicana entre 1974 e 1975 de duas perspectivas. De um lado, constitui uma fonte preciosa para o cientista social e para o historiador, que deve situa-la em meio as outras fontes disponíveis como um verdadeiro arquivo e, assim, procurar uma aproximação àquele processo de profunda transformação em que o mundo em cidades até então coloniais ficou literalmente de ponta-cabeça; de outro, pretendemos construir os órgãos de imprensa supracitados como agentes de um processo fazia com que Moçambique saísse de um regime colonial de minoria branca para o que seria um República Popular de partido único. Enfim, pretendemos discutir a associação entre imprensa e revolução no contexto específico de Moçambique entre 1974 e 1975.


BIOGRAFIAS


Joana Passos é investigadora no Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho. Doutorou-se em estudos feministas e pós-coloniais na Universidade de Utrecht, Holanda (2003). Tem trabalhado com literaturas de língua inglesa e portuguesa, tendo mais de trinta artigos publicados. Fez o seu pós-doutoramento na Universidade do Minho, tendo publicado uma história da literatura de Goa em língua portuguesa, a partir de uma perspectiva crítica pós-colonial (2012). Co-organizou dois dossiers da DIACRÌTICA (Narrando o Índico – 2013; Os 50 anos de Luuanda – 2014), e co-editou dois livros sobre estudos pós-coloniais em língua portuguesa (Áfricas Contemporâneas – 2010; Itinerâncias, Percursos e representações da pós-colonialidade – 2012). Actualmente é membro da equipe do projecto NILUS (FCT/CESA) e do projeto Pensando Goa (Universidade de S. Paulo). Co-editou em 2016 “Prémios Literários – O Poder das Narrativas, As narrativas do Poder”, um dos produtos do projeto homónimo, patrocinado pela Fundação Gulbenkian.

Omar Ribeiro Thomaz é professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, do Programa de Pós-Graduação em História (História Social da África) e do Doutorado em Ciências Sociais, todos no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas. Concluiu seu doutorado na Universidade de São Paulo e realizou pós-doutoramento no Max Planck Institute for Social Anthropology com o apoio da Humboldt Foundation, tendo realizado estágios de pesquisa e períodos de docência em instituições como o Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, a Universidade Livre de Berlim, na Universidade Nacional San Martin, a Écoles des Hautes Études en Sciences Sociales e o Centre de Recherche et Development (Port-au-Prince). Nas últimas duas décadas vem trabalhando com antropologia dos conflitos, particularmente em Moçambique e no Haiti.

Pamila Gupta é Professora Associada no WISER (Wits Institute for Social and Economic Research), Universidade Witwatersrand em Joanesburgo, África do Sul. É doutorada em Antropologia pela Columbia University. Publicou nas seguintes revistas científicas: Critical Arts, African Studies, Ecologie & Politique, Island Studies Journal, Journal of Asian and African Studies, Ler História, e Public Culture. É co-editora do livro Eyes Across the Water: Navigating the Indian Ocean com Isabel Hofmeyr and Michael Pearson (UNISA, 2010). O seu ensaio intitulado The Relic State: St. Francis Xavier and the Politics of Ritual in Portuguese India foi publicado pela Manchester University Press in 2014. Atualmente, está a preparer uma nova publicação, intitulada Ethnographies of Lusophone Decolonization in India and Southern Africa.

Sushila Sawant Mendes é doutora em história pela Universidade de Goa. Durante os últimos 27 anos tem sido chefe do Departamento de História no Government College of Arts, Science & Commerce, Quepem in Goa (Acreditado nível ‘A’). A sua dissertação de doutoramento deu origem ao livro “Luis de Menezes Braganza: Nationalism,Secularism and Free-thought in Portuguese Goa’. Apresenta regularmente comunicações em seminários estaduais e nacionais, muitas das quais foram publicadas em livros sobre a história de Goa. Atualmente, trabalha na redação do seu Segundo livro: “Assolna,Velim and Cuncolim: A Historical Tri-Conglomerate of Goan Culture”. Foi estudante ativista, e é agora administradora do Manovikas Public Charitable Trust, uma instituição com grande reputação no campo educacional em Goa. É também administradora do Silver Star Appeal (Índia, uma fundação dedicada aos diabéticos. 

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