P05 – A imprensa colonial portuguesa e espanhola em África: memórias, políticas e práticas da colonização ibérica

22.05.2017, Auditório 1, Torre B, FCSH-UNL

P05.A – 14.30h-15.50  | P05.B – 16.00-17.20

Yolanda Aixelà – Institución Milà i Fontanals – Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Espanha

Rui Mateus Pereira –  IHC, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, Portugal

Ana Lúcia Pereira  Sá – CEI-IUL, ISCTE-IUL, Portugal

Resumo: A imprensa foi um dos meios ao dispor dos regimes coloniais europeus em África para representar lugares e populações e para suportar as práticas e as políticas de ocupação. Os produtores e os receptores das mensagens transmitidas eram diversos e a imprensa serviu não apenas para construir as imagens do mundo colonial, mas principalmente para produzir um conhecimento que consolidasse a dominação e a subalternização das sociedades colonizadas. Assim, os documentos e textos desta imprensa terão de ser perspectivados como criadores do sistema colonial e das relações de poder por este sustentadas. Através da análise de boletins oficiais e de títulos publicados por outros agentes, como congregações religiosas ou associações de colonos, é possível reconstruir as memórias dos protagonistas da história colonial, observar as políticas e as práticas que formavam os regimes ou identificar os acontecimentos e os agentes que eram considerados uma ameaça ao status quo.

O painel tem como objecto o património cultural espanhol e português em África representado por jornais, revistas, meios de propaganda e documentação das autoridades coloniais no século XX. O painel, aberto a propostas em português, castelhano e inglês, visa apresentar estudos de caso sobre a implementação das práticas e políticas coloniais, a construção do quotidiano colonial e a representação de sujeitos coloniais. Acolhe também estudos comparados das práticas e memórias coloniais nos territórios espanhóis e portugueses.

Palavras-chave: Colonialismo espanhol e português em África, produção de conhecimento, políticas e práticas coloniais


P05.A – 14.30h-15.50


 1. Yolanda Aixelà-Cabré, IMF-CSIC, Espanha

Uma revisão das memórias coloniais no Protetorado de Marrocos a partir da imprensa escrita (1929-1936)

No Protetorado espanhol, as ações nacionalistas na imprensa foram mais precoces do que no Protetorado francês. Cabe destacar a publicação de imprensa em árabe, bem como a difusão da causa nacionalista através da sua comercialização. Em linha geral, estas atividades no Protetorado espanhol não foram suficientemente conhecidas nem valorizadas pela historiografia colonial, pelo que este período histórico de Marrocos foi reconstruído a partir das políticas e das práticas coloniais do Protetorado francês e não tanto através das experiências daquele espanhol. Isto fez com que se ignorasse também a mobilização nacionalista da área espanhola.

Uma revisão dos seus conteúdos e intercâmbios com os nacionalistas do Protetorado francês permite traçar uma análise do modo como se construiram as memórias coloniais e quais foram os mecanismos de resistência ativados pelos marroquinos contra a presença colonial franco-espanhola. 

Palavras-Chave: imprensa, memórias coloniais, Marrocos, Protetorado espanhol, nacionalismo.


2. Araceli González Vázquez, IMF-CSIC, Espanha    

De bandido a barão feudal: a imagem de Raisuni e a resistência marroquina ao colonialismo na imprensa espanhola

Esta comunicação analisa a imagem do líder marroquino Ahmed Raisuni (1871-1935) na imprensa espanhola entre 1912 e 1927. Este foi um período de forte resistência marroquina ao colonialismo espanhol. A comunicação analisa as notícias sobre as ações de Raisuni e também quatro relatórios/entrevistas publicados em jornais relevantes (“El Imparcial”, “El Heraldo de Madri”, “La Nación” e “El Día”). A comunicação considera, a nível discursivo e metadiscursivo, o papel da imprensa espanhola na difusão de perceções dominantes da liderança de Raisuni e também de outros líderes marroquinos da resistência ao colonialismo, especialmente nos anos da Guerra do Rife.

Palavras-Chave: imprensa espanhola, Marrocos, Raisuni, nacionalismo, colonialismo.


3. Pol Dalmau, European University Institute, Espanha

 “O nosso futuro está em África”: o colonialismo espanhol em Marrocos e a imprensa periódica
Na última década surgiu um novo fluxo de pesquisa dedicado ao estudo da dimensão popular do colonialismo europeu. O ponto em questão neste campo é a suposição de que o imperialismo não era apenas o trabalho de algumas elites, nem um processo de cima para baixo, mas sim um fenómeno que exigia um mínimo de consentimento da sociedade. Com base neste debate, a minha apresentação irá examinar o papel da imprensa de massa enquanto agente ativo na transformação dos entendimentos públicos sobre o mundo islâmico em Espanha. Assim, se Benedict Anderson enfatizou a importância que a imprensa teve ao imaginar a “nação”, sabe-se menos sobre como os jornais contribuíram para este processo de acordo com o seu papel de mediadores entre contextos coloniais e públicos domésticos. Para abordar esta questão, centrar-me-ei num conflito pouco conhecido, chamado a “Guerra de Melilha” (1893), para examinar as formas como a imprensa contribuiu para popularizar os novos discursos orientalistas sobre Marrocos junto dos leitores espanhóis. Em contraposição à ênfase tradicional consagrada na literatura às atitudes agressivas para com os marroquinos, será dada ênfase tanto às dimensões multifacetadas e muitas vezes contraditórias do discurso orientalista espanhol, quanto ao modo como esses discursos circularam e foram re-adaptados em múltiplos contextos (locais, nacionais e coloniais).

Palavras-Chave: Imprensa de massa, Colonialismo espanhol, Marrocos.


4. Rocío Velasco De Castro, University of Extremadure, Espanha

Imprensa colonial espanhola: Um estudo de caso da Revista de Tropas Coloniales

Este artigo está focado na Revista de Tropas Coloniales (1924-1936), revista fundada em Ceuta como a voz do Exército da África durante a chamada “campanha de pacificação” após o desastre de Annual (1921). Com Queipo de Llano como diretor e Franco como membro da Comissão de Direção, esta publicação pode ser considerada uma das melhores fontes para saber de primeira mão quais devem ser os eixos da política colonial espanhola de um ponto de vista militar pró-ativo.

Da análise das suas páginas pode-se concluir a importância da revista para estudar as aspirações de um cada vez mais influente Exército da África na concepção da ação espanhola em Marrocos e também na vida política espanhola. Pode também introduzir alguns aspectos-chave das suas contradições ideológicas relativamente ao pragmatismo desses rebeldes militares durante a guerra civil espanhola e à política desenvolvida pelo regime de Franco, especialmente quanto à pretendida “fraternidade hispano-marroquina”.

Palavras-Chave: Marrocos espanhol, Política colonial, Exército da África


P05.B – 16.00-17.20


5. Ana Lúcia Sá, CEI-IUL, ISCTE-IUL, Portugal

Representações dos “indígenas” em São Tomé e Fernando Pó: estudo comparado da imprensa colonial portuguesa e espanhola

São Tomé e Fernando Pó foram duas colónias de exploração de Portugal e Espanha no Golfo do Biafra. O sistema de plantação centrado no cacau exigia mão-de-obra que tornasse as colónias rentáveis. Nestes contextos, o regime do indigenato e o respectivo código do trabalho era imposto aos sujeitos coloniais, a quem eram atribuídas características identitárias baseadas nos eixos da “civilização” e do trabalho. Esta comunicação apresenta um estudo comparado sobre as representações dos “indígenas” na imprensa colonial espanhola e portuguesa, de modo a aferir sobre as semelhanças desta figura da retórica e da governação colonial nos colonialismos ibéricos.


6. Rui Mateus Pereira, IHC, FSCH-UNL, Portugal

A “ocupação científica” na imprensa colonial periódica. O “Boletim da Sociedade de Estudos da Colónia de Moçambique” (1931-1972)

Em 1931, sob a tutela da Sociedade de Estudos da Colónia de Moçambique, uma associação privada que tinha por objectivos “contribuir para o estudo e valorização económica de Moçambique e contribuir para o desenvolvimento intelectual, moral e físico dos seus habitantes em geral, e, em especial, dos seus associados” foi publicado o 1.º número do Boletim da Sociedade de Estudos da Colónia de Moçambique. Com edição trimestral, manteve-se em publicação até à data de independência de Moçambique (1975). Nas primeiras décadas o BSECM foi uma importante componente na afirmação dos saberes locais, num contraponto dialético às determinações de ocupação científica emanadas pelo poder central que faziam chegar à colónia missões científicas dirigidas por académicos metropolitanos. Importa perceber até que ponto estes saberes locais nas mais diversas áreas do conhecimento estavam desalinhados com os intentos da ocupação científica e quais as razões, políticas ou outras, dessa desarticulação.


7. Simão Jaime, Arquivo Histórico de Moçambique – Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique

A Imprensa da Igreja Metodista Episcopal (IME) em Moçambique e a colonização das mentes africanas, 1890 a 1968

A Conferência de Berlim, realizada em 1885, marcou o início de uma nova era para o continente Africano. As potências colonizadoras partilharam a África entre si. Um dos slogans para justificar a ocupação, era salvar a África da selvajaria, do tráfico de escravos e da ignorância, legitimando o direito de as missões cristãs desenvolverem as suas actividades “civilizadoras’ em África, e tendo os missionários como agentes dos seus países. Foi neste quadro em que, em 1890, a IME se estabeleceu em Moçambique, com o objectivo de converter as populações ao Cristianismo. Nas suas campanhas de evangelização, os missionários da IME pregavam contra as práticas culturais locais, com a itenção de erradicá-las. Para o sucesso do seu trabalho, a IME instalou uma Imprensa que reproduzia e imprimia materiais de liturgia, incluindo jornais. O meu paper tem como objectivo, analisar e partilhar os conteúdos de algumas publicações da IME, no período entre 1890 e 1968. O meu argumento é que tais conteúdos eram contrários à realidade africana, e tinham como finalidade a “colonização” das mentes africanas, para permitir o sucesso da conversão.

Palavras-Chave: Cristianismo, Imprensa, Cultura, Evangelização, Conversão, Colonialismo


8. Ambra Pinello, Università di Palermo, Itália

Construção colonial e justificação: o discurso dominante em “Legiones y Falanges”

Ao longo do século XX, os regimes coloniais europeus usaram meios variados e diferentes para impor as suas políticas e apoiar suas práticas. Neste quadro, como irei demostrar, a imprensa desempenhou um dos papéis mais relevantes. Na verdade, com base na revista “Legioni e Falangi. Rivista d’Italia e di Spagna / Legiones y Falanges. Revista Mensual de Italia e de España (1940-43)”, esta comunicação pretende definir a imprensa colonial como paradigmática das relações entre o dominante e o dominado e também como ferramenta de construção da identidade.

A minha comunicação faz parte de um conjunto crescente de pesquisas lideradas pela rede internacional “MEMITA” – “Memória, identidade, integração para identificar modelos de análise na comunicação mediática”, que propõe uma reflexão sobre a função da imprensa na formação da orientação, da coação e da recuperação identitária.

O objetivo do meu trabalho é revelar que a análise dos textos coloniais – e de “Legiones y Falanges” em particular – é extremamente útil para rastrear, avaliar e recodificar o passado, recuperando uma memória histórica indispensável para a construção do presente.

Para atingir esse objetivo, concentrei-me nos artigos referentes à colonização espanhola, examinando, de acordo com a análise crítica do discurso, como as autoridades coloniais justificam suas invasões, conquistas e colonizações militares.

Palavras-Chave: Imprensa, colonialismo, discurso dominante, identidade.


BIOGRAFIAS


Ambra Pinello é doutoranda em Estudos Literários, linguísticos, históricos e culturais na Universidade de Palermo, com um projeto de pesquisa sobre imprensa e identidade nacional (“Il ruolo del discorso mediatico nella costruzione dell’identità nazionale: il caso di Legiones y Falanges, 1940-43”). É licenciada e mestre em Línguas e Literaturas estrangeiras desde 2012, após ter sido bolseira Erasmus na Universidade de Murcia, Espanha. Desde 2015 integra a Rede Internacional MEMITA- Memória e Identidade. Participou em vários congressos internacionais, e o seu ensaio “Azorín en Legiones y Falanges: creador desengañado de microcosmos felices” foi publicado no livro Identità, totalitarismo e stampa. Ricodifica linguistica-culturale dei media di regime, curated by C.Prestigiacomo, 2016.

Ana Lúcia Sá. Doutora em Sociologia, é Professora Auxiliar Convidada no Departamento de Ciência Política e Políticas Públicas e investigadora no centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL. É a directora do Mestrado em Estudos Africanos do ISCTE-IUL. A sua investigação centra-se nas relações sociedade-Estado em regimes autoritários em África, especialmente em Angola e na Guiné Equatorial, e nas heranças coloniais nas actuais idiossincrasias sociais, culturais e políticas em contextos africanos. A sua última publicação é o capítulo “The Concept of ‘Land’ in Bioko: ‘Land as Property’ and ‘Land as Country’” no livro Doing Conceptual History in Africa (ed. Axel Fleisch e Rhiannon Stephens, New York, Berghahn, 2016).

Araceli González Vázquez é investigadora títular no Institució Milà i Fontanals do CSIC- Consejo Superior de Investigaciones em Barcelona. É doutora em História pela Universidade de Cantabria (2010), licenciada em Antropologia Social pela Universidade de Deusto (2004), e licenciada e mestre em História pela Universidade de Cantabria (1999, 2005). Anteriormente foi investigadora pós-doc do programa “Juan de la Cierva” (2016-2017) no Instituto de Lenguas y Culturas del Mediterraneo y Oriente (ILC) do CSIC- Consejo Superior de Investigaciones em Madrid; na Universidade do País Basco (2013-14) em Vitoria-Gasteiz e no  Laboratoire d´Anthropologie Sociale do Collège de France (2011-12) em  Paris.

Pol Dalmau é doutorado pelo Istituto Universitario de Florença, Itália, e é investigador no Cañada Blanch Centre na London School of Economics. O seu livro, em preparação, aborda uma célebre família de proprietários de periódicos sediados em Barcelona, fundadores de “La Vanguardia”, um dos mais antigos jornais da Espanha, ainda hoje no topo das vendas. O estudo Analisa o modo como os membros desta família aproveitaram a imprensa para ganhar visibilidade nacional e expander os seus interesses nas colónias espanholas nas Caraíbas e no Norte de África. O livro pretende aprofundar as relações entre meios de comunicação de massa, colonialismo e política na Espanha moderna, abordando estes tópicos a partir de uma perspetiva europeia e transnacional.

Rocío Velasco de Castro é doutorada em Estudos arábicos e islâmicos pela universidade de Sevilha; mestre em História contemporânea pela UNED (National Distance Education University). É especialista em História contemporânea do Maghreb, Cultura Islâmica, Civilização e religião. É bacharel em Estudos arábicos e islâmicos pela Universidade de Sevilha. É professor auxiliar desde 2007 na Universidade de Extremadura. Em 2006 foi docente de Espanhol na Universidade Abdelmalek Essaadi of Tetouan. Foi professora na Universidade de Sevilha entre 2001 e 2005; Visiting Professor na Università degli studi di Napoli L’Orientale, Itália, e na Université d’Artois, França. Os seus interesses de investigação incluem: história contemporânea do mundo árabe; relações Espanha-Marrocos; nacionalismo marroquino; processos coloniais e pós-coloniais no mundo árabe, e Movimentos feministas árabes e islâmicos.

Rui M. Pereira é doutorado em Antropologia pela Universidade Nova de Lisboa e é presentemente professor auxiliar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) e investigador do Instituto de História Contemporânea (IHC). A sua investigação tem-se centrado em temas sobre história da antropologia em contextos coloniais, políticas coloniais e antropologia da guerra. Trabalha também temas de museologia, arte contemporânea e teoria da arte em África, no âmbito o qual foi curador de várias exposições e editou e publicou diversos catálogos de arte africana. Levou a cabo investigação etnográfica e arquivística em Moçambique, Portugal e Brasil.

Simão Jaime Mafuaiana, Inhambane, Moçambique, 1964). Licenciado em História pela Universidade Eduardo Mondlane, Mestre e Doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia. É Chefe do Departamento de Arquivos e Colecções Especiais do Arquivo Histórico de Moçambique. Tem participado regularmente em Seminários e Conferências Nacionais e Internacionais e desenvolvido numerosos trabalhos de investigação, nomeadamente dedicados à cultura moçambicana e ao tratamento de fontes orais. Tem diversos livros e artigos publicados. Fala e escreve português, inglês, xitswa, xangana, ronga, chope e bitonga.

Yolanda Aixelà Cabré é investigadora, desde 2008 no IMF (Barcelona) da Agencia Estatal Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC). É doutora em Antropologia cultural. Fez trabalhos de campo no Egito, Marrocos, Guiné Equatorial e Espanha, e etnografias nas Suiça, Inglaterra, Holanda, Camarões e África do Sul. Desde 1999, tem participado em 16 projetos de pesquisa espanhóis e 1 Consolider project, 4 dirigidos por Aixelà. É autora e co-editora de 11 livros, 68 capítulos e artigos em revistas nacionais e internacionais indexadas.

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