P06 – Desporto na imprensa colonial portuguesa

22.05.2017, 17.40-19.00, Auditório 1, Torre B, FCSH-UNL

Augusto Nascimento – Universidade de Lisboa, Portugal

Victor Andrade Melo – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil

Marcelo Bittencourt – Universidade Federal Fluminense, Brasil

Resumo: Estudos recentes têm chamado a atenção para a importância do curso do desporto nas colónias portuguesas. De início, a prática desportiva era sinónimo de refinamento de costumes de colonos portugueses e de indivíduos de outra nacionalidade. Depois, seria mobilizada por grupos ou associações de africanos que pugnavam pela afirmação social, cultural e da civilização do negro – grupos que, não raro, serviram de etapa de consciencialização de indivíduos posteriormente envolvidos na insurgência pelas independências. O desporto acabou por ser usado pelos governantes em prol do laço colonial. Afora tais dimensões políticas, as actividades desportivas foram uma das principais opções de lazer da população – colonos, “civilizados” e “indígenas” – em territórios cuja configuração social tendia a ser, embora não declaradamente, avessa à difusão do desporto por este colidir com relações sociais rigidamente delineadas. A imprensa registou essas iniciativas quotidianas, assim como ajudou a construir significados para o fenómeno, mormente os relacionados com as expectativas do poder colonial. Porém, também aí se criticou a falta de investimento, veiculando-se as reivindicações das agremiações e lideranças desportivas locais. Com este painel, pretende-se tecer um balanço do tratamento do desporto na imprensa das colónias portuguesas em África e aprofundar os seus vários e, amiúde, contraditórios significados políticos e sociais nas várias conjunturas do colonialismo.

Palavras-Chave: Desporto, lazer, Império


1. Andrea Marzano – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Brasil

Desporto e lazer na imprensa de Luanda: Apontamentos para uma História Social da Cultura

A comunicação pretende analisar, através da imprensa de Luanda, o lazer e as práticas esportivas presentes na cidade entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Levadas a Angola pelos europeus mas apropriadas pelas elites da terra, estas formas de sociabilidade adquiriram características próprias, marcadas pelo hibridismo, e acabaram despertando o interesse do restante da população. Investigando, através da imprensa, conflitos e compartilhamentos propiciados pelo desporto e pelo lazer, pretende-se abordar pontos nevrálgicos da presença colonial em Luanda.

Palavras-Chave: Desporto, lazer, Luanda, expansão colonial


2. Aurélio Rocha – Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique

Imprensa desportiva de Moçambique – dos primórdios às secções e aos suplementos desportivos

Em Moçambique, o associativismo cultural e recreativo tiveram na imprensa o apoio para a sua afirmação. A imprensa, a par da educação, constituiu-se no espaço privilegiado de expansão e popularização das actividades de lazer nas suas mais variadas expressões, incluindo as desportivas. A popularização do desporto, sobretudo o futebol, acelerou o seu desenvolvimento e institucionalização em termos competitivos em todas as zonas do país, onde pequenos grupos começaram a desenvolver actividades desportivas, que iam disseminando localmente.

As notícias desportivas emergem praticamente com os jornais generalistas surgidos nas primeiras décadas de novecentos, que publicam com regularidade notícias sobre as actividades desportivas nas diversas colectividades. A informação desportiva assumiu carácter autónomo quando se começaram a publicar jornais desportivos, quase sempre efémeros, prolongando-se na segunda metade do século XX por páginas/secções e suplementos e, também, por revistas e boletins de clubes, alguns deles de assinalável persistência.

Também na imprensa desportiva se destacaram jornais e jornalistas com um passado de luta. Não se podem ignorar os riscos que na época colonial, sobretudo durante o Estado Novo, correram figuras do jornalismo, cuja ousadia e integridade levou por vezes ao desemprego e à prisão. Foi nestes jornais que se destacaram as vozes mais críticas e que procuraram pugnar pela afirmação dos negros no desporto e pelo fim da segregação racial no desporto, designadamente no futebol.

São estas as questões que, conjugadas com informação sobre a evolução histórica da imprensa desportiva, procuraremos analisar nesta comunicação.

Palavras-Chave: associativismo desportivo; imprensa desportiva; identidade                                     


3. Victor Andrade Melo – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil

O esporte na imprensa colonial de Cabo Verde e da Guiné

Há diferenças significativas no que tange ao desenvolvimento do esporte em Cabo Verde e na Guiné Portuguesa, algo que tem relação com o diverso tempo de estruturação econômica e cultural de cada uma dessas colônias africanas. Enquanto no arquipélago, a prática se desenvolveu desde o século XIX e foi constantemente mobilizada na construção de uma identidade local que não se estabeleceu como motivo de rompimento com a metrópole, na segunda província o esporte começou a se estruturar a partir dos anos 1930 e nos anos finais do colonialismo dramatizou mais intensamente os conflitos pela independência que tomaram conta do território guineense. Em ambas, a imprensa ocupou importante papel na estruturação do campo esportivo, atuando como mediadora entre as reivindicações dos agentes (jogadores, dirigentes e técnicos) e os intuitos governamentais. Esta comunicação objetiva discutir as representações desses cronistas, as encarando não só como alinhadas com os interesses metropolitanos, mas também como expressão das tensões que cercavam a experiência colonial.

Palavras-Chave: Colonialismo. Esporte. Identidade


4. João Pedro Lourenço – Biblioteca Nacional de Angola, Angola

«Nós também queremos a independência». O papel do desporto no período de transição em Angola: uma análise a partir da imprensa

O desporto e os desportistas, à semelhança de outros sectores da sociedade colonial em Angola, tiveram uma grande intervenção no processo de transição política em Angola. Ignorada pela maior parte da historiografia sobre o assunto, a acção destes manifestou-se nos primeiros dias do pós-25 de Abril com a amnistia dos desportistas irradiados ou com outro tipo de sanções, com o “saneamento” das instituições relacionadas com o desporto, o problema das instalações desportivas e mais tarde com posicionamentos políticos sobre a sua estruturação e da necessidade de ser independente. A análise da imprensa da época, nos permite ter um quadro das diversas modalidades que tinham competições oficiais e regulares, entre as quais destacam-se o futebol, o basquetebol, a natação, o andebol, o hóquei em patins e o desporto motorizado. É possível verificar que havia competições de âmbito provincial e distritais, em seniores, em juniores e iniciados; para além do desporto “federado”, havia o desporto escolar e para trabalhadores. Por altura da Revolução dos Cravos, as competições estavam a meio, nalguns casos, e no fim, noutros, e continuaram normalmente, com expceção daquelas que estavam sob alçada da Mocidade Portuguesa. Com a extinção dessa organização em Angola, por exemplo, várias provas de natação foram canceladas e mais tarde foram realizadas sob responsabilidades de outros organismos. Um dos colectivos mais activo neste período, foi o dos professores de educação física que exigiu a demissão do responsável por está e organizou um movimento sindical com objectivo de defender os interesses da classe. A medida que a situação política e militar se tornava difícil o desporto, também ressentia os efeitos e seguia a dinâmica, principalmente depois da instalação dos movimentos de libertação em Luanda e noutros distritos. Na parte final da transição, a imprensa nos mostra como a saída da comunidade branca afectou a realização de diversas competições, bem como, a orientação política que o desportou tomou entre Julho e Novembro de 1975.

Palavras-Chave: Desporto, saneamento, independência, imprensa.


5. Nuno Domingos – ICS, Universidade de Lisboa, Portugal

O Desporto no jornalismo de José Craveirinha

O conhecido poeta moçambicano José João Craveirinha, nascido em 1922 em Maputo, a então Lourenço Marques colonial, manteve uma actividade jornalística constante ao longo da sua vida. Esta dimensão da sua vida é menos conhecida do que a sua carreira literária, que o consagrou como um dos mais importantes autores de língua portuguesa. Craveirinha colaborou em diversas publicações periódicas, nomeadamente em O Brado Africano, no Itinerário, no Notícias, na Mensagem, no Notícias do Bloqueio e no Caliban. Nestas colaborações, o desporto foi um dos seus temas mais recorrentes. O seu interesse pelo desporto não se reduzia ao acompanhamento de competições desportivas, que narrou para as várias publicações onde exerceu o jornalismo. Craveirinha considerava o desporto um dos meios mais notórios para avaliar a capacidade do africano em recriar jogos trazidos para África pelo colonizador europeu. Neste sentido, Craveirinha utilizou o jogo como meio de investigação de um processo mais amplo de urbanização, mas também como um instrumento político de crítica ao sistema colonial. Em alguns dos seus artigos este programa de pesquisa, necessariamente limitado pelo formato jornalístico, foi sendo desenvolvido. É sobre este textos que esta apresentação se propõe falar.

Palavras-Chave: Moçambique, desporto, José Craveirinha, resistência


BIOGRAFIAS


Andrea Marzano é professora de História da África na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Autora de Cidade em cena: o ator Vasques, o teatro e o Rio de Janeiro (1839-1892), de 2008. Organizadora, com Victor Andrade de Melo, de Vida Divertida: histórias do lazer no Rio de Janeiro (1830-1930), de 2010. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a cidade de Luanda (1870-1930) sob uma perspectiva da História Social da Cultura, tendo publicado vários artigos sobre o tema.

Augusto Nascimento é investigador do Centro de História da Universidade de Lisboa. É colaborador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto e do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa. Autor de livros sobre São Tomé e Príncipe.

Aurélio Rocha é, desde 1977, Professor Auxiliar e Investigador nos Departamentos de História e de Ciência Política e Administração Pública da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da UEM. Membro-colaborador do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane (Mauto). Autor de vários livros, entre os quais, Associativismo e Nativismo. Contribuições para o Estudo das Origens do Nacionalismo Moçambicano, 1900-1940 , de 2002; Moçambique, História e Cultura, de 2006, e Maputo, Cidade das Acácias, de 2009.

João Pedro da Cunha Lourenço, Licenciado em Ciências da Educação, especialidade História pela Universidade Agostinho Neto; Mestre em Iniciação à Investigação em História pela Universidade Autónoma de Barcelona; Doutorando em História na Universidade Nacional de Educação à Distância de Espanha. Textos publicados relacionados com a História da Imprensa angolana e sobre a luta de libertação nacional. Actualmente, é Professor de História de Angola no Instituto Superior de Ciências da Educação e Director da Biblioteca Nacional de Angola.

Marcelo Bittencourt é Professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Coordenador do Núcleo de Estudos Africanos (NEAF) da UFF. Publicou, entre outros, Esporte e lazer na África: novos olhares (2013), Mais do que um jogo: o esporte no continente africano (2011). “Estamos Juntos!” O MPLA e a luta anticolonial, 1961-1974 (2008), Dos jornais às armas. Trajectórias da contestação angolana (1999).

Nuno Domingos é Investigador Auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Doutorado em antropologia social pela School of Oriental and African Studies. Publicou Futebol e Colonialismo, Corpo e Cultura Popular em Moçambique. (Lisboa: ICS, 2012)e editou, com Elsa Peralta, Cidade e Império. Dinâmicas coloniais e reconfigurações pós-coloniais (Lisboa: Ed 70, 2012).

Victor Andrade de Melo é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde atua nos Programas de Pós-Graduação em História Comparada e de Educação. É coordenador do Sport: Laboratório de História do Esporte e do Lazer. É autor do livro Jogos de identidade: o esporte em Cabo Verde” (2011) e co-organizador de Esporte e lazer na África: novos olhares, com Marcelo Bittencourt, Nuno Domingos e Augusto Nascimento (2013) e Mais do que um jogo: o esporte e o continente africano, com Marcelo Bittencourt e Augusto Nascimento (2010).

Anúncios
%d bloggers like this: