P07 – A colónia de Timor: perificidade, imprensa periódica e circulação de notícias entre nódulos coloniais

22.05.2017, 16.00-17.20, Auditório 2, Torre B, FCSH-UNL

Vicente Paulino – Universidade Nacional de Timor Loro`Sae (UNTL) / CEMRI –Uab, Timor Leste

Lúcio Sousa – Universidade Aberta / CEMRI-UAb e IELT-FCSH, Portugal

Resumo: A imprensa periódica em Timor colonial português é um espelho da perificidade que caraterizava o território no contexto das colónias portuguesas. De facto, somente em meados do século XX surgem os periódicos editados localmente. Todavia, este facto não inibe que este território seja, desde meados do século XIX, parte do circuito intercolonial de produção e circulação de notícias. Ainda que escassas, as notícias de Timor, produzidas localmente, ou concebidas externamente sobre o território, emergem com regularidade na imprensa periódica portuguesa, macaense, mas também nas das Índias Orientais holandesas e na vizinha Austrália, nodosidades de um circuito de ideias elaboradas, no caso de Portugal, para um público metropolitano (Sousa, 2016).

A circunscrição tardia da produção de imprensa no território emerge coma publicação do periódico Seara em 1949, pertencente à diocese de Díli; do jornal A Voz de Timor em 1960, sob controlo do governo provincial, e de A Província de Timor, em 1964, um jornal do Comando Territorial Independente de Timor. São um espaço de reprodução de discursos exógenos mas igualmente de difusão localizada de uma ideia comum de Timor (Paulino, 2012). Extrínseco a este processo, o periódico A Voz da Comunidade Chinesa de Timor, apoiado pelo governo de Taiwan, é iniciado ainda nos finais dos anos cinquenta (Tique, 2013).

É no quadro desta tripartição entre as instituições fundamentais da colónia, com editoriais demarcados pelos respetivos interesses, que vai emergir, ainda que tardiamente em relação a outros espaços coloniais, uma arena pública de expressão de atores sociais timorenses, que vão usar esse campo para o debate da cultura e identidade timorense e, a partir de 1974, para a sua manifestação política.

A ocupação indonésia cria uma nova relação colonial que vigora até 1999, e Timor é, neste contexto, um palco de revelação de interesses na imprensa, sobretudo internacional, usada como veículo de integração ou oposição, manifestos de colonialidade e de resistência.

Este painel pretende debater o papel destes diferentes nódulos e interesses associados produção e circulação de notícias na constituição do político em Timor Leste, enquanto veículo de expressão de imaginários culturais, emergência de literaturas locais e manifestação de consciência identitária.

Palavras-Chave: Imprensa, colonial, Timor, voz, identidade


1. Vicente Paulino – Universidade Nacional de Timor Loro`Sae (UNTL) / CEMRI –Uab, Timor Leste

Ainda sobre o jornalismo de expressão portuguesa no Timor colonial

Nesta comunicação pretende-se examinar a presença do jornalismo de expressão portuguesa no Timor Português, tema acerca do qual, apesar da existência de alguns trabalhos prévios (Paulino, 2012; Paulino, 2016), ainda não foi estudado globalmente. Neste contexto será dado destaque específico aos jornais/boletins de expressão portuguesa em Timor Português que ainda não foram estudados ou analisados de forma exaustiva, como por exemplo, a Crónica de Timor, o Jornal de Timor e o jornal diário A Voz de Timor. Serão analisadas em particular as informações veiculadas nas suas páginas relativamente à visão da colónia no contexto do espaço colonial português, sobretudo num momento em que Portugal perde a sua colónia património de Goa, Damão e Diu, e se envolve nos anos sessenta em três frentes de guerra com os movimentos de libertação em revolta contra o poder colonial português. Este artigo pretende, desta forma, promover os estudos jornalísticos, de forma a “registar a memória”, porquanto esta é parte essencial da nossa identidade enquanto nação e Estado, e parte essencial nos debates contemporâneos sobre Timor Leste.

Palavras-Chave: Jornalismo, Timor, memória, colónia


2. Irta Sequeira Baris de Araújo – Universidade Nacional de Timor Loro`Sae (UNTL), Timor Leste

Revisitar a questão da igreja, juventude e opinião pública na imprensa católica SEARA

Na Encíclica Passe in terris, do Papa João XXIII, a eliminação das relações de dominador e dominado e o progressivo acesso destes últimos à independência são advogados. Uma postura que se vai manter no Concílio Vaticano II, inspirado por este documento, que advoga ainda o desenvolvimento de uma opinião pública. Já o Papa Pio XII –no início dos anos 1950 – considerava a opinião pública como “o património de toda a sociedade normal composta por homens que, conscientes da sua conduta pessoal e social, estão intimamente ligados à comunidade a que pertencem” (Nunes, 1963). Neste contexto, a juventude, enquanto parte desta comunidade está, simultaneamente, num estado de espírito dinâmico e, ao mesmo tempo, anacrónico. De facto, o Jornal Seara, “Na hora da juventude” (Seara 1972, ano 7, nº 220), explicita que não existe o conceito de “perder”, mas que tudo se transforma. O objetivo desta comunicação é, no contexto das mudanças em curso na Igreja, debater o conceito de juventude defendido neste órgão jornalístico local, analisando assim qual o papel que lhe reservava na formação de uma opinião publica na sociedade timorense, isto numa altura em que este era dos poucos espaços públicos de produção dessa opinião, nomeadamente por parte dos, então, jovens futuros líderes da nação timorense.

Palavras-Chave: Juventude, opinião pública, Timor, Seara

(por motivos imprevistos não estará presente)


3. Miguel Maia dos Santos – Universidade Nacional de Timor Loro`Sae (UNTL) / CEMRI –Uab, Timor Leste

Vicente Paulino, Universidade Nacional de Timor Loro`Sae (UNTL) / CEMRI –Uab, Timor Leste

Etnografias de “costumes e tradições” na imprensa periódica de Timor

Neste texto, pretende-se abordar as notas etnográficas de missionários e outros autores publicadas na revista católica “SEARA” e no jornal “A Voz de Timor” como “imaginários literários”, com fins “culturais”, mas também proselitistas. Estes artigos representaram uma forma de debater a realidade sócio-cultural timorense e são também uma fonte importante da posterior “imaginação da nação”. Estas notas etnográficas falam de “costumes e tradições” do povo de Timor, nomeadamente a questão do barlaque, a alma timorense e os mitos de grupos etnolinguísticos distintos. A imprensa católica, através da “SEARA”, interessou-se pelos “costumes e tradições” dos timorenses com o objectivo de tirar partido de algumas das suas características culturais para facilitar os seus propósitos missionários. No entanto, a contribuição destes e de outros autores, em particular no jornal “A Voz de Timor”, está ainda a ser explorada, pelo que neste artigo pioneiro e interdisciplinar abordaremos de forma multifacetada e comparativa as notas etnográficas dos missionários e de outros agentes (militares e funcionários públicos), no intuito de comparar as suas narrativas e os seus objectivos e de determinar que legados permaneceram no Timor Leste contemporâneo.

Palavras-Chave: Imprensa católica, etnografias, costumes e tradições, imaginário.


 4. Lúcio Sousa – Universidade Aberta / CEMRI-UAb e IELT-FCSH

O indígena revoltado: Manufahi, 1912 ecos na imprensa internacional

Os anos de 1911, 1912 e 1913 são férteis em revoltas nas colónias portuguesas (Pélisier, 2006). Em Timor a revolta de Manufahi foi a última grande insurreição contra o poder português naquela que era a mais recôndita parcela do seu império colonial. As notícias, tardias, da revolta na imprensa metropolitana são marcadas por um discurso laudatório da ação portuguesa, uma omissão generalizada da participação de timorenses como aliados nas ações de guerra e a legitimação do recentemente implementado regime republicano (Sousa, 2016). Com o fim da revolta o território é considerado definitivamente ocupado.

Nesta comunicação pretendo apresentar dados exploratórios sobre os ecos, percursos e ressonâncias das notícias desta revolta na imprensa estrangeira, comparando-a com a metropolitana. De facto, a revolta altera o estatuto de perificidade do território, que adquire assim uma centralidade inusitada na imprensa periódica portuguesa, macaense, mas também na das Índias Orientais holandesas e na vizinha Austrália, nodosidades de um circuito colonial que gera notícias ao mesmo tempo que manifesta interesse em descortinar o resultado dos esforços portugueses para debelarem esta rebelião.

Palavras-Chave: Timor, revolta, imprensa, internacional


5. António Barbedo de Magalhães, Jorge Pópulo, Luís Pinto, Sofia Elisabete Costa – Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

Papel da ação política e da comunicação social na luta pela autodeterminação e independência de Timor-Leste

O Arquivo Professor Barbedo, criado pelo Professor Barbedo de Magalhães, ainda em fase de tratamento e ao cuidado da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, reúne informação relativa à luta pela autodeterminação e independência de Timor-Leste.

Através do estudo deste arquivo, será possível fazer uma reconstituição histórica do processo político que impediu a Potência Administrante, Portugal, de se demitir das suas responsabilidades quando pressionada pelos interesses dominantes das grandes potências – nomeadamente dos EUA e dos seus principais aliados – para deixar morrer a questão nas Nações Unidas. Através dele se poderá ver a importância de definir e concretizar uma política de combate anti-colonial realista e eficaz visando os principais atores internacionais condicionantes do processo político e que importava conquistar para a Causa da Autodeterminação. Nesta, as ações de solidariedade e a comunicação social anti-colonial tiveram um papel determinante para ir conquistando a solidariedade e apoio em Portugal, nos EUA, na Austrália, no Reino Unido, na Indonésia e noutros países da região.

Este arquivo contém documentos predominantemente do período de 1974 a 2007, incluindo jornais e revistas periódicas e outros documentos da luta política e diplomática.

http://biblioteca.fe.up.pt/apb/solidariedade/index.html

Palavras-Chave: Trabalho político; Comunicação social; Imprensa; Timor-Leste; Independência; Autodeterminação; Identidade


BIOGRAFIAS


António Barbedo de Magalhães – Professor Emérito da Universidade do Porto na FEUP. Desenvolveu trabalho político para impedir o Governo Português de deixar cair a questão de Timor na ONU e para desenvolver a solidariedade portuguesa e internacional (indonésia, australiana, americana, etc.). Em 1975 foi o coordenador do projeto de descolonização do ensino em Timor.

Irta Sequeira Baris de Araújo – Professora da Universidade Nacional de Timor Leste (UNTL). Mestre em Educação e Movimentos Sociais pela UFSC – Brasil. Participou com comunicações em conferências e colóquios, tendo publicado alguns textos académicos em capítulo de livro.

Jorge Pópulo – Licenciado em História, pela Universidade Portucalense. Especialização em Ciências Documentais – Opção Arquivo e Mestrado em Ciência da Informação, pela Universidade do Porto. Desempenha funções no Arquivo da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

Lúcio Sousa – Antropólogo. Professor Auxiliar no Departamento de Ciências Sociais e de Gestão da Universidade Aberta. O seu doutoramento foi realizado em Timor Leste, com uma etnografia das práticas socio-rituais e organização social de uma comunidade bunak, nas montanhas fonteiras de Timor Leste com Timor Oeste, Indonésia.

Luís Pinto – Tradutor/Intérprete. Colaborou com as Jornadas de Timor da Universidade do Porto.

Miguel Maia dos Santos. É professor e Pró-reitor de Provedoria e de Aconselhamento da Universidade Nacional de Timor Loro`Sae  (UNTL). Doutorando em Estudos da Cultura pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL). Participou com comunicações em conferências e seminários nacionais e internacionais, tendo publicado alguns trabalhos académicos em capítulos de livros.

Sofia Elisabete Costa – Licenciada em Ciência da Informação e Mestre em História e Património pela Universidade do Porto. Foi bolseira de investigação no Arquivo da Fundação Casa de Mateus, colaborou no recenseamento do Arquivo da Orquestra do Norte e atualmente colabora no tratamento do Arquivo Professor Barbedo.

Vicente Paulino – Professor Auxiliar Convidado da Universidade Nacional de Timor Loro`Sae (UNTL). Diretor da Unidade de Produção e Disseminação do Conhecimento do Programa de Pós-graduação e Pesquisa da UNTL. Investigador colaborador Centro de Estudos das Migrações e Relações Interculturais (CEMRI-UAb).

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