P12 – “Conflitos (anti)coloniais” no Império Colonial Português

24.05.2017, 10.30-11.50, Anfiteatro III , FLUL

Organização do Congresso

Resumo: Os conflitos anticoloniais tiveram um papel fundamental na construção da imprensa colonial, como diversas comunicações inscritos em outros painéis evidenciam. Nas suas formas mais tensas esses conflitos assumiram diversas feições, desde revoltas contra o avanço da intervenção do Estado no quotidiano das populações, motins, guerras de resistência aos movimentos de ocupação, conspirações reais ou forjadas pelo poder, até às lutas pela libertação. Os contextos ditaram que a sua presença na imprensa tenha variado. No entanto, o controlo exercido pelo Estado Colonial sobre a imprensa ditaria a dificuldade de forjar visões e narrativas alternativas sobre os conflitos às veiculadas pelo poder. Como tal, seria sobretudo por meio da imprensa clandestina ou de exílio que tais narrativas emergiriam, quando os contextos o permitiram. Por parte do poder foram sempre ocasiões em que tendeu a intensificar a acção de propaganda e de vigilância, quando não perseguição das vozes dissonantes. Com este painel pretendemos criar um espaço dedicado à discussão destas matérias.

Palavras-Chave: conflitos anticoloniais, imprensa clandestina, imprensa de exílio, imprensa anticolonial


1. Patrícia Valim, Universidade Federal da Bahia, Brasil

Entre a reforma e a revolução: boletins manuscritos e cultura política na Conjuração Baiana de 1798             

Na manhã de 12 de agosto de 1798, a cidade da Bahia, como Salvador era chamada na época colonial, foi surpreendida pela publicação de boletins manuscritos afixados em lugares públicos de grande circulação, a fim de anunciar à população a insurreição que instituiria A “República Democrática Bahinense”. Em uma sociedade do Antigo Regime, pautada pelo escravismo, as palavras de ordem da Revolução Francesa, como Liberdade e Igualdade, quebraram o circuito privilegiado da informação e ação política, ressignificando ideias e criando conexões na esfera pública entre o texto escrito e a tradição oral da cultura popular. Quando quebraram este circuito privilegiado, homens livres, pobres e crioulos deram significado político à realidade em que viviam, criticaram a desigualdade natural entre homens e foram enforcados e esquartejados em praça pública, acusados do crime de Lesa-Majestade de Primeira Cabeça.

Palavras-Chave: Boletins manuscritos, Reforma, Revolução, Sistema Colonial


2. Sílvia Torres, CIC.Digital, FCSH, UNL

Há guerra em Moçambique: o conflito ultramarino português, o jornal Notícias de Lourenço Marques e o repórter Guilherme de Melo   

A Guerra Colonial chegou à imprensa de Moçambique através dos comunicados oficiais, com reduzidas e facciosas informações sobre o conflito. Guilherme de Melo, ao serviço do jornal “Notícias”, não via nesta informação oficial a vertente humana da guerra, a voz dos soldados que nela combatiam. Este vazio levou-o ao teatro de operações. Através de reportagens, de crónicas e de artigos de opinião e também através do suplemento semanal que criou, intitulado “Coluna em Marcha” e exclusivamente dedicado aos militares portugueses, o jornalista deu destaque ao conflito, favorecendo sempre os “heróis” de Portugal em detrimento dos “bandoleiros” que atacavam o território lusitano. Além de mostrar, com texto e imagem, um dos lados da guerra que se desenvolvia em Moçambique, pôs militares a ler o diário “Notícias” e também ao seu serviço. Tornou-se conhecido e influente pelas reportagens de guerra que fez e foi um dos jornalistas de confiança do regime do Estado Novo, que pouco trabalho deu à censura. Para Guilherme de Melo, a guerra era necessária para defesa do Portugal uno do Minho a Timor e, apesar de nem todos a sentirem, lembrar que ela existia era também seu dever. Foi um repórter parcial voluntariamente – a censura não permitiria outra versão dos factos – e foi também um repórter que recolheu informação sobre a Guerra Colonial no teatro de operações de Moçambique.

Palavras-Chave: Guilherme de Melo, Guerra Colonial, jornal Notícias, jornalismo de guerra, Moçambique, censura, imprensa periódica colonial  Portugal


3. Alda Romão Saúte Saíde, Universidade Pedagógica, Moçambique

A imprensa e a guerra colonial/luta de libertação em Moçambique: o caso do jornal Ressurgimento, 1968-1973   

Marcelo Caetano tornou-se Presidente do Conselho de Ministros de Portugal e do Ultramar, aos 26 de Setembro de 1968 em pleno agudizar da guerra nas colónias portuguesas. Ao assumir o poder, face a questão colonial, reforçou a manutenção da política de defesa do Ultramar. Em Moçambique, com o agravar da situação político-militar, introduziu algumas alterações cosméticas, como por exemplo, a mudança de designação da Polícia Internacional de Defesa do Estado – PIDE para Direcção-Geral de Segurança – DGS e nas cadeias foi introduzido um vasto programa psico-social para os presos políticos que consistia entre vários aspectos, na criação de um jornal (o chamado Ressurgimento) onde os presos políticos tinham de se confessar arrependidos, portugueses e patriotas!

O jornal Ressurgimento, feito por presos políticos ‘arrependidos’, não se destinava de facto aos presos mas sim às comunidades moçambicanas dos distritos mais afectados pela ‘subversão’, ao exterior em particular aos países limítrofes da colónia de Moçambique, bem como à sede da FRELIMO em Dar-es-Salaam.

O presente estudo tem como objectivo analisar os conteúdos veículados no jornal Ressurgimento no âmbito da reflexão em torno de algumas questões, tais como: o jornal Ressurgimento como um documento histórico; como instrumento da propaganda do Sistema colonial e; o seu papel enquanto documento que nos remete pra uma multiplicidade de leituras que poderão ir para além do contexto colonial.

Palavras-Chave: Ressurgimento, guerra colonial, terroristas/turas, DGS, recuperação, pátria


4. Helena Lima- Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal e Olívia Pestana – Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal

A perda das colónias portuguesas na Índia – Enquadramentos noticiosos no Diário de Notícias e Jornal do Comércio

O fim da ocupação colonial portuguesa na Índia ocorreu depois de confrontos no plano diplomático e algumas escaramuças militares. A invasão de Goa pelas forças indianas, a 18 de dezembro de 1961, pôs fim às pretensões portuguesas sobre o território e foi o culminar de um crescendo de tensões que de alguma forma foram reportadas pela imprensa da União. O mal-estar vivido na colónia indiana foi igualmente tema nos jornais portugueses. Os enquadramentos noticiosos adotaram várias estratégias narrativas e específicos enfoques discursivos. No campo jornalístico, a prática profissional usa a remissão para a fonte como estratégia de objetividade. Contudo, e neste caso, a utilização sistemática das agências pode implicar a noção de uma informação previamente tratada e não direta, nomeadamente no uso da Lusitânia e da ANI como fontes quase exclusivas de informação. A hierarquização noticiosa é outro dos processos de enquadramento inevitável, uma vez que as chamadas à capa e o volume crescente de notícias indicia o valor-notícia do tema ou a sua desvalorização.

Este trabalho apresenta a análise do Diário de Notícias e do Jornal do Comércio, publicados no mês de Dezembro de 1961, e a metodologia utilizada consistiu na análise quantitativa inicial, procurando-se entender, através de uma grelha de conteúdos e de índices de assuntos, quais as estratégias jornalísticas usadas, havendo, seguidamente, a análise de conteúdo direcionada para os elementos discursivos.

Palavras-Chave: ocupação colonial, invasão de Goa, análise de conteúdo


BIOGRAFIAS


Alda Romão Saúte Saíde, Professora Associada, é doutorada em História Africana pela University of Minnesota, USA, licenciada em História e Bacharel em ensino de História e Geografia pela Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique. É docente de História Económica, História de África e História Regional – África Austral nos cursos de Licenciatura e Mestrado na Uiniversidade Pedagógica e docente convidada no Instituto Superior de Ciências de Educação – ISCED Luanda, Angola nos cursos de Mestrado. É também investigadora Sénior do Centro de Análises Políticas da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da UEM. As suas áreas de interesse são: Descolonização/lutas de libertação, Governação (municipalização e governação participativa), Missões cristãs, Educação, Género e Trabalho migratório.

Helena Lima, Universidade do Porto. Professora Auxiliar da da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e diretora do Mestrado em Ciências da Comunicação da Universidade do Porto. É doutorada pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e autora de livros e capítulos de livros, bem como artigo em revistas na área da história do jornalismo e as temáticas relacionadas com os conteúdos das notícias. Outras áreas de investigação incidem sobre o jornalismo digital, a reconfiguração das práticas profissionais e os fenómenos de participação nos sítios noticiosos.

Olívia Pestana, doutorada em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais, é Professora Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e leciona na área científica da Ciência da Informação. Os seus interesse atuais centram-se na análise de conteúdo e indexação por assuntos nos diversos domínios, bem como na produção, organização e uso da informação científica.

Patrícia Valim. Graduada em PEDAGOGIA (1996) e em HISTÓRIA (2003) pela Fundação Santo André. Mestre em História Social (2007) e Doutora em História Econômica (2013), pela Universidade de São Paulo. Professora Adjunta de História do Brasil Colonial no Departamento de História da UFBA. Como investigadora tem trabalhado História do Brasil Colônia e História Econômica, principalmente nos seguintes temas: História da Bahia; Produção, Circulação e Consumo no Brasil Colonial, Conjunturas Insurgentes e Cultura Política no Brasil Colonial; Administração Colonial; Conjuração Baiana de 1798; Lutas pela Independência Política na Bahia.

Sílvia Torres é aluna do 4.º ano do Doutoramento em Ciências da Comunicação – Estudo dos Media e do Jornalismo da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Licenciada em Jornalismo e Comunicação e mestre em Jornalismo, é autora da obra “Guerra Colonial na revista Notícia” e organizadora do livro “O Jornalismo Português e a Guerra Colonial”. Sílvia Torres estuda a cobertura jornalística da Guerra Colonial feita pela imprensa portuguesa de Angola, da Guiné Portuguesa e de Moçambique, entre 1961 e 1974, dando destaque a reportagens e repórteres de guerra. A Fundação para a Ciência e a Tecnologia e a CIC.Digital apoiam este projeto.

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