P13 – O Papel Político-Cultural da Imprensa Periódica Colonial Metropolitana na Esfera Pública Imperial

24.05.2017, Anfiteatro III , FLUL

P13.A  – 9.00 -10.20 | P13.B – 10.30-11.50

Adelaide Vieira Machado – CHAM, FCSH, Universidade NOVA de Lisboa, Universidade dos Açores, Portugal

Isadora Ataíde – Investigadora Independente

Resumo: A Imprensa colonial oficial e independente editada a partir das Metrópoles na contemporaneidade, cumpriu um papel de mediação cultural e político que urge levantar, estudar e categorizar. O cruzamento da questão colonial com a recomposição teórica e doutrinal da ideia de democracia, ambas em evolução desde a massificação que a era industrial trouxera, colocaram o problema da igualdade como agente de desconstrução e construção de novas realidades. A modernidade recém-inaugurada perfilou através da imprensa não só novos actores como o caso dos intelectuais engajados, mas também uma ideia de cultura abrangente que procurava ligar e explicar a totalidade humana. É nesta linha que surgem vários conceitos de Império, de Metrópole ou Colónia. O relacionamento entre o todo e o fragmento conhece novas e várias leituras que a Imprensa traduz e divulga. A Imprensa colonial metropolitana é aquela que procura transmitir os modelos coloniais em presença, que procura implementá-los ou modifica-los e ganhar seguidores, numa troca e validação constantes com as elites coloniais em presença. Assim, a ideia de metrópole altera-se consoante estes modelos que se vão teorizando criando uma esfera pública de opinião, um lugar onde se renovam ideias e impõem novas sociabilidades e se reconstroem identidades que se aproximam, se afastam ou opõem-se ao discurso oficial. É essa riqueza cultural e política que a imprensa permitiu existir, que este painel pretende apresentar e abrir à troca de ideias.

Palavras-Chave: Imprensa colonial, Metropole, Colónias, Democracia, Espaço público


P13.A  – 9.00 -10.20


1. Sónia Henrique, IHC, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, Portugal

 A opinião pública portuguesa ao tempo do Boletim e Annaes do Conselho Ultramarino

Depois da Revolução de 1820, em Portugal, uma das preocupações das Cortes foi a imprensa. Sem que houvesse liberdade de imprensa não seria possível a existência de uma Monarquia Constitucional. A liberdade de imprensa surge como nuclear para a realização da liberdade civil. Atendendo à importância dos periódicos, na segunda metade do século XIX, e subordinado ao tema deste Congresso Internacional, constitui-se como objetivo deste trabalho uma análise da complexidade da realidade pública através da sua expressão num tipo particular de periodismo, elegendo-se enquanto objeto de reflexão um periódico especializado de patrocínio governamental: o Boletim e Annaes do Conselho Ultramarino.

Através da leitura e análise desta publicação oficial, pretende-se refletir sobre a oscilação do poder; bem como a influência que os sucessivos Governos expressaram na publicação, sublinhando os eventos que provocaram na opinião pública maior impacto. Aceder à dinâmica construtiva e relacional desta publicação para melhor compreender quem eram os leitores-alvo da publicação, as suas competências e qual o intento na sua escolha por parte de quem delineava um espaço simbólico onde se maturavam e partilhavam valores.

Palavras-Chave: Conselho Ultramarino, imprensa colonial, publicação oficial


2. Tânia Regina de Luca, Unesp, Brasil

As exposições universais de Antuérpia (1885) e Paris (1889) na revista “A Ilustração” (1884-1892)

As revistas ilustradas constituem um tipo bastante específico de periódico, que teve sua época áurea na segunda metade do século XIX, antes de se dispor de métodos diretos de reprodução da fotografia, que se generalizaram por volta de 1900. O primeiro impresso do gênero foi “”The Illustrated London News”” (1842), matriz replicada ao redor do mundo, inclusive no Brasil e em Portugal. Nesta comunicação se trata de apresentar os resultados de pesquisa realizada com “”A Ilustração””, lançada em Paris em 1884 e que era enviada quinzenalmente a Lisboa e ao Rio de Janeiro. A revista circulou até janeiro de 1892 e teve como seu diretor Mariano Pina, correspondente em Paris do jornal “”Gazeta de Notícias”” (RJ, 1875), que em de fins de 1885 tornou-se seu proprietário.

Segundo o padrão que consagrou esse gênero de impresso, o objetivo era oferecer um produto bem acabado do ponto de vista gráfico, com metade das suas 16 páginas ocupadas por belas estampas, no mais das vezes relativas aos acontecimentos do momento, com particular destaque para o mundo da cultura. Durante o período de circulação da revista, ocorrerem duas exposições universais: a de Antuérpia, na Bélgica (1885) e a de Paris (1889) comemorativa do centenário da Revolução Francesa.

A questão a ser respondida diz respeito ao espaço consagrado pela revista para esses dois eventos, com o intuito de evidenciar a maneira como a questão colonial foi tratada no periódico, com especial destaque para as colônias portuguesas.

Palavras-Chave: “A Ilustração”, Mariano Pina, Exposições Universais


3. Josenildo de Jesus Pereira, Universidade Federal do Maranhão /Instituto de Ciencias Sociais/ICS-UL

A Revista “Portugal Em África” e a Construção do III Império Português

A partir do final do final século XIX, o continente africano foi o palco da incursão de uma nova onda de ações coloniais sistematizadas por parte de Portugal e de outros países europeus. Na configuração do “Terceiro Império Português” se destaca o papel politico-cultural da Congregação do Espirito Santo oficialmente fundada em 28 de setembro de 1848, cujo mentor foi o Pe. Liberman. Esta Congregação passou a publicar, mensalmente, a partir de 1894, a revista cientifica – “Portugal em África” (PA). Ela teve dois tempos de publicação. O primeiro de 1894 a 1910 (fase colonial), e o segundo de 1944 a 1973 (fase teológica). Em relação a Portugal, os redatores sublinhavam que “a ressurreição de uma parte das suas grandezas e glórias só é possível pela criação de um novo emporio lusitano, no Continente Negro””. Por isso, a revista devia ser cientifica “na maior parte das suas imensas ramificações: a política, a religião, a moral, o direito, a administração, a economia, a história, a geografia, a geologia, a zoologia, a botânica, a climatologia, a etnologia”” e outros ramos. Nesse sentido, a análise de seus conteúdos relativos a economia, a religião, a administração, a geografia, a botânica e a etnografia, em sua fase colonial pode colaborar para a nossa melhor compreensão dos fundamentos do “III Império Português” e, por extensão, da lógica das representações de África e dos africanos no discurso colonial português à época.

Palavras-Chave: “Portugal em África”, colonialismo, África


4. Sérgio Neto, Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20), Portugal

A África no “Jornal da Europa”

A actividade do Jornal da Europa deve ser compreendida a partir dos ideais de redenção que vinham a marcar a intelectualidade e o discurso político desde meados de Oitocentos. Neste sentido, uma série de periódicos de temática ultramarina viu a luz do dia. Informativos e/ou combativos, esses jornais e revistas esforçaram-se por alargar o reduzido espaço que as notícias coloniais ocupavam na imprensa. Quase todos eles inovaram pouco no modo de transmitir os seus objectivos. Continuavam a dirigir-se a um público muito específico, que o mesmo é dizer tão-só aos círculos ultramarinos. Tentavam, também, recorrendo à publicação de tabelas e dados sobre a riqueza económica das parcelas ultramarinas, atrair o potencial colono.

Não foi essa a linha editorial seguida pelo periódico aqui analisado. Apesar de os artigos versando a economia ocuparem um maior volume de páginas, temas como a cultura dos “indígenas”, a beleza das paisagens, as impressões de viagem e as privações romanceadas do quotidiano dos colonos, tenderam a ocupar uma significativa fatia. Antecipando o que o Estado Novo iria promover nas suas publicações, o Jornal da Europa combinou literatura e propaganda, numa tentativa de cativar os leitores.

O trabalho que se segue buscará traçar a trajectória e descrever seu papel no espaço jornalístico português, em breve ocupado pelo Estado Novo e pelos seus mecanismos ligados à AGC e ao SPN.

Palavras-Chave: Imprensa; Colonialismo; Literatura; Viagem; Propaganda


P13.B – 10.30-11.50


5. Célia Reis, Instituto de História Contemporânea – FCSH, UNL, Portugal

As Colónias do Oriente no jornal “A Capital”

O jornal «A Capital» surgiu um pouco antes da implantação da República e foi publicado, com pequenas interrupções, até 1926; a partir daqui teve maiores alternâncias até 1938. Profundamente associado à defesa da República, encaminhou-se na década de 1920 para a «Esquerda Democrática».

Nesta comunicação procede-se à análise das colónias portuguesa no Oriente, Estado da Índia, Macau e Timor, entre 1910 e 1926, considerando-se a importância que assumiram na opinião pública do país através deste periódico. Este estudo permite igualmente acompanhar as diversas temáticas associadas a estes espaços e a sua evolução ao longo dos anos.


6. Diego Schibelinski, Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil

História e Humor, Arte e Política: a questão colonial na imprensa satírica ilustrada da Primeira República portuguesa

As ideologias de dominação que sustentaram os regimes coloniais possuíam alicerces que extrapolaram a barreira do material. Mais do que dominar por meio da força, foi preciso promover a construção de “verdades” que, ao criarem um imaginário acerca do Outro e do lugar que este deveria ocupar, legitimavam as relações sociais assimétricas geradas pela estrutura social colonial. Com relação ao caso português, alguns autores chamam atenção para a importância que a imprensa ilustrada pode ter assumido no processo de formulação, difusão e consolidação de um imaginário colonial. Tendo isto em mente, este trabalho tem como objetivo localizar e identificar de que maneira as colônias portuguesas em África foram representadas em caricaturas vinculadas na imprensa satírica ilustrada da Primeira República. Os títulos consultados foram aqueles que compunham o acervo digital da Hemeroteca Municipal de Lisboa. Após uma análise cuidadosa, obteve-se um grupo de 52 caricaturas, publicadas entre os anos de 1909 e 1927 e advindas de cinco jornais diferentes. Foram consideradas fontes em potencial para análise, as caricaturas que, publicadas dentro do recorte temporal sugerido, apresentaram representações diretas ou indiretas das colônias africanas ou dos africanos. Estas caricaturas, depois de encontradas, foram identificadas, catalogadas, e analisadas. O tratamento das caricaturas como fontes foi realizado levando em consideração a bibliografia especializada na discussão do tema.

Palavras-Chave: Arquivo visual colonial, imaginário colonial, caricaturas como documentos


7. Isadora de Ataíde Fonseca (investigadora independente)

A democracia em debate no império na Gazeta das Colónias

Analisar e discutir os conceitos, valores e princípios democráticos disseminados pelo jornal Gazeta das Colónias (1924-1926), publicado a partir de Lisboa, no contexto da cultura política colonial é o objectivo desta comunicação. Os conceitos e princípios democráticos são revistos à luz das teorias da Ciência Política, articulados ao contexto republicano português e contextualizados no cenário do império colonial. Os temas e conteúdos – no âmbito editorial, opinativo e noticioso – relativos ao regime político, à administração colonial e aos direitos e deveres sociopolíticos nos espaços ultramarinos são explorados para se analisar tanto as percepções quanto as reivindicações de princípios e práticas democráticas, bem como de políticas e acções, para os espaços coloniais e os seus indivíduos. A comunicação explora também a ideia da existência de um ‘espaço público’ e de uma ‘esfera pública’ no contexto colonial, na qual se articulam problemáticas e demandas comuns entre as diversas colónias.

Palavras-Chave: Império, democracia, esfera pública, Gazeta das Colónias, Portugal


8. Adelaide Vieira Machado, CHAM, FSCH, Universidade Nova de Lisboa

As revistas intelectuais coloniais na República (1912-1937)

O debate que esteve na base da construção do pensamento colonial português foi em grande grau mediado e divulgado pela imprensa colonial intelectual independente. A importância da classificação desta imprensa e dos seus agentes levaram-nos a escolher quatro títulos de revistas metropolitanas, A Revista Colonial (1912), A Revista Colonial (1913-23), A Gazeta das Colónias (1924-26) e o Portugal Colonial (1931-37), que nos ajudarão a fundamentar uma classificação e a equacionar os principais momentos num período sem univocidade mas que por isso mesmo nos permitiu compreender e estabelecer alcances e limites.

Mensais, semanais ou quinzenais, estas revistas surgiam através de um manifesto com o propósito de atingir e ganhar a adesão de um público alargado e com intenções programáticas claras que variavam entre as certezas ideológicas e o desejo democrático de abrirem um/ao espaço público de reflexão e discussão participadas. Subsidiadas por grupos de interesses independentes dos governos podiam ou não apoiar partidos e figuras públicas, no entanto, assumiam um papel cultural de moralização da política e de correcção dos desvios politiqueiros. Nos casos vertentes apresentavam soluções e caminhos vários para a edificação de um império português dentro de uma ideia de modernidade que se impunha para o espaço Europeu.

De 1912 a 1933 estas revistas acompanharam as principais questões do momento colonial republicano, e a necessidade da sua criação para actualizar o debate, justifica a sua importância e duração, bem como, o destaque que agora lhes damos como exemplos de um universo mais alargado.


BIOGRAFIAS


Adelaide Vieira Machado 

Celia Reis é licenciada em História pela Universidade Nova de Lisboa, Mestre em História do século XX e doutoranda na mesma instituição, onde integra também o Instituto de História Contemporânea. Leciona em Torres Vedras. Para além de outros estudos, dedica-se à análise das questões coloniais no final do século XX/início do século XX, particularmente às colónias do Oriente. Participa regularmente em encontros científicos. Tem publicados vários artigos e capítulos de livros, com destaque para os que integram o 4.º volume da História dos Portugueses no Extremo Oriente), e três livros, incluindo O Padroado Português no Extremo Oriente na Primeira República.

Diego Schibelinski é membro do do Laboratório de Estudos de História da África (LEHAf) e mestrando da Pós-Graduação em História Cultural da Universidade Federal de Santa Catarina (Brasil). O seu trabalho final é sobre política e humor na imprensa ilustrada de Lisboa durante a Primeira República Portuguesa.

Isadora de Ataíde Fonseca

Josenildo de Jesus Pereira. Graduado em História Licenciatura pela Universidade Federal do Maranhão-UFMA (1986), tem Mestrado em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2001) e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (2006). É professor Associado I da Universidade Federal do Maranhão – UFMA. É professor permanente do Programa de Pós-Graduação de História Social da UFMA e ministra a disciplina História da Árica no Departamento de História-UFMA. Tem experiência pesquisa em História da Africa e do Brasil Império com enfase nos temas: Escravidão Moderna, Educação e Relações Étnico-raciais, e colonialismo.

Sérgio Neto licenciou-se em História, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 2000, com a média final mais alta desse ano, tendo-lhe sido atribuído o Prémio Eng.º António de Almeida. Em 2007, concluiu o mestrado em História Contemporânea na mesma universidade, tendo a dissertação Colónia Mártir, Colónia Modelo. Cabo Verde no pensamento colonial português (1925-1965) sido publicada pela Imprensa da Universidade Coimbra, e recebido uma menção honrosa na edição de 2010 do Prémio Victor de Sá de História Contemporânea para Jovens Investigadores, da Universidade do Minho. Em 2014, concluiu o doutoramento em Altos Estudos Contemporâneos – Estudos Internacionais Comparativos pela Universidade de Coimbra.

Professor do ensino básico e secundário e do ensino sénior, o autor tem vindo a desenvolver investigação sobre o colonialismo português desde 2001, altura em que ganhou o Prémio “Estímulo à Investigação”, do Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian. Os resultados conheceram publicação em diversos artigos e comunicações. É investigador integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20).

Sónia Isabel Duarte Pereira Henrique. Mestre em Ciências da Informação e da Documentação, na variante de Arquivística pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Encontro-me inscrita no curso de Doutoramento em Arquivística Histórica na mesma Faculdade. O objeto de estudo da investigação para o desenvolvimento da Tese de Doutoramento compreende o arquivo da Direcção Geral do Ultramar (1835-1910) custodiado pelo Arquivo Histórico Ultramarino.

Tânia Regina de Luca é Professora do curso de graduação e pós-graduação em História da Unesp/Assis. Realiza pesquisas em História do Brasil República, atuando principalmente nos seguintes temas: Historiografia, História Social da Cultura, História da Imprensa, História dos Intelectuais, construção dos discursos em torno da nação e do nacionalismo. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a imprensa, entre as décadas finais do XIX e os primeiros decênios da centúria seguinte. Pesquisadora principal no projeto temático A circulação transatlântica dos impressos. A globalização da cultura no século XIX, financiado pela Fapesp. Bolsista produtividade do CNPq, nivel 1B.

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