P15 – Discurso Científico na imprensa periódica colonial

24.05.2017, 10.30-11.50, Anfiteatro II, FLUL

Ana Roque – CH-ULisboa. Centro de História. Faculdade de Letras. Universidade de Lisboa, Portugal

Cátia Miriam da Costa – CEI, ISCTE-IUL, Portugal

Resumo: O discurso científico foi disseminado através de diferentes fontes impressas. No século XIX não só os livros, como uma nova imprensa científica periódica e algumas secções de jornais que estimularam uma nova forma de discussão dos assuntos científicos. A discussão entre pares nas revistas científicas e a divulgação de conhecimento científico entre os leitores dos jornais transformou o modo como a ciência foi exposta à sociedade e o seu papel no desenho de políticas públicas. A imprensa periódica colonial não foi uma excepção como até algumas revistas científicas foram criadas especificamente para discutir e disseminar a “ciência colonial”.

Este painel visa a discussão sobre a circulação do conhecimento científico na imprensa periódica colonial (científica ou geral, publicada nas colónias ou nas metrópoles) e o seu impacto na sociedade. Como a imprensa periódica beneficiou da oportunidade de servir como veículo do discurso científico? Como influenciou ou mudou o discurso científico? Qual foi o impacto deste discurso na opinião pública nas colónias e na metrópole? Estes são alguns dos tópicos que esperamos discutir neste painel, considerando a sua possível relevância quando analisamos a relação entre discurso científico e imprensa periódica.

Palavras-chave: discurso científico, imprensa periódica colonial, imprensa periódica científica, ciência colonial, conhecimento científico


1.João Otávio Tomazini Fardin, Pedro Ernesto Miranda Rampazo, Marcio Lucas Moreira Rodrigues, USC – Universidade do Sagrado Coração, Brasil

Medicina e imprensa: o ideário médico no jornal “O Patriota” (1811-1814)

O Patriota pode ser entendido como um jornal pioneiro da imprensa científica no Brasil. Com o selo da Coroa, neste veículo circulavam as pesquisas e produções literárias do período. Dentre elas, estão os enunciados médicos do Rio de Janeiro. A partir das obras disponibilizadas pela Biblioteca Nacional Digital, pode ser analisado o periódico produzido entre 1813 e 1814, com um total de dezoito números. Neles estão presentes estudos que enfocam as causas das doenças endêmicas e epidêmicas da capital. São registros produzidos por profissionais da área através dos quais evidenciam-se as concepções médicas do período. Assim, este jornal é um veículo interessante para estudar a concepção médica existente no Rio de Janeiro no início do século XIX. Percebe-se que esta já não se liga as respostas e soluções teológicas presentes até o século XIX. Contudo, os médicos consideram que em seu estudo devem analisar e intervir em fatores tidos como “não naturais”, sendo: geografia da cidade, higiene pessoal e publica, alimentação e práticas morais; construindo assim uma prática médica que não enfoca os agentes, mas o meio no qual se desenvolvem as doenças.

Palavras-Chave: Imprensa científica, Rio de Janeiro, medicina


2. Maria João Soares e Maria Manuel Torrão, Centro de História, Universidade de Lisboa, Portugal

Cabo Verde: História, Memórias e tradição oral no Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro (1851-1900)

O almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro fundado em Portugal em 1851 e publicado até 1932 teve um impacto assinalável nos meios intelectuais do arquipélago de Cabo Verde na 2.ª metade do séc. XIX. O panorama da imprensa periódica local foi marcado pela intermitência de um número restrito de periódicos, cuja falta de viabilidade financeira acabava por ditar o seu fim precoce. A elite letrada saída das escolas de instrução pública da Brava e da cidade da Praia e posteriormente do Seminário-Liceu, que socializava em diversas associações culturais e recreativas carecia de meios para expressar a sua voz. Um dos veículos por ela encontrado foi precisamente este Almanaque, um periódico à escala lusófona e lusógrafa que reunia contributos das diferentes parcelas imperiais. A elite de Cabo Verde teve uma participação muito relevante neste meio de comunicação, nomeadamente através da publicação de textos sobre história, memória e tradição do arquipélago.

Neste estudo pretende-se analisar que tipo de discurso revestiu a divulgação daquelas temáticas, com particular destaque para o discurso científico e literário.

Palavras-Chave: Cabo Verde, História, Memória, Tradição Oral


3. Ana Roque, CH-ULisboa. Centro de História, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, Portugal e Cátia Miriam Costa, Centro de Estudos Internacionais (ISCTE-IUL), Portugal

Os Congressos Coloniais Nacionais: discurso científico e imprensa periódica colonial

Os Congressos Coloniais Nacionais foram uma iniciativa da Sociedade de Geografia de Lisboa com o objetivo de reunir especialistas nas questões coloniais. A transversalidade/multidiversidade de participantes deveria marcar os debates e congregar conclusões em torno da discussão das linhas mestras da política colonial e da sua aplicação nos territórios sob domínio português.

Realizaram-se três congressos, respetivamente em 1901, 1924 e 1930, cada um deles condicionado por um contexto político particular – Monarquia Constitucional, Primeira República, Ditadura Militar – que determinou a natureza e o impacto das discussões que neles tiveram lugar. Os dois primeiros tiveram um papel central no debate sobre as questões coloniais, com repercussões imediatas ao nível da imprensa periódica colonial; o terceiro, centrado na discussão do Acto Colonial, assumiu um carácter sobretudo político, mais fechado e menos participativo.

A lista dos delegados aos dois primeiros congressos, incluindo associações profissionais de jornalistas e agremiações científicas e profissionais, levou a um acompanhamento mais imediato dos trabalhos, permitindo equacionar como o discurso científico preparado para estes congressos foi transposto para os jornais coloniais e publicações científicas da época e qual o público alvo preferencial. Abordaremos estes dois primeiros congressos com o objetivo de sublinhar esta relação entre discurso científico e a sua disseminação na imprensa.

Palavras-Chave: Congressos coloniais nacionais, imprensa científica, imprensa periódica colonial, discurso científico, Sociedade Geografia de Lisboa


BIOGRAFIAS


Ana Cristina Roque. Doutorada em História dos Descobrimentos e da Expansão. Foi professora na Universidade Eduardo Mondlane (Maputo) e investigadora do Instituto de Investigação Científica Tropical (Lisboa) onde integrou diversos projetos de cooperação com os países da CPLP. É, desde Agosto de 2015, investigadora do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde é vice-coordenadora da linha de investigação Ciência e Império.

Cátia Miriam Costa é licenciada em Relações Internacionais, mestre em estudos Africanos pela Universidade de Lisboa e doutorada pela Universidade de Évora em Literatura. A sua tese de doutoramento, Continuidades e Descontinuidades da Colonização Portuguesa: Literatura e jornalismo entre a utopia e realidade, focou-se na análise do discurso de protonacionalistas na imprensa angolana do início do século XX. O projeto pós-doc Quebrar o silêncio: poder e circulação discursiva na sociedade colonial e pós-colonial foca-se na relação entre imprensa, circulação de ideias e intelectuais e a sua expressão política. Tem participado em diferentes projetos e publicado em Portugal, Brasil, Espanha e Reino Unido. Neste momento, participa na Rede COST IS 1210 e foi co-coordenadora da candidatura à Rede CYTED, envolvendo seis países, 16 universidades e 17 centros de investigação, intitulada “COOPMAR: Cooperação transoceânica. Políticas públicas e comunidade sociocultural iberoamericana”. É especialista em análise de discurso e estuda sobretudo as relações entre imprensa, poder, cultura e ciência. Com Adelaide Vieira Machado e Sandra Ataíde Lobo concebeu e promoveu a constituição do Grupo Internacional de Estudos da Imprensa Periódica Colonial do Império Português (GIEIPC-IP).

João Otávio Tomazini Fardin. Graduando em licenciatura em História pela Universidade do Sagrado Coração – USC – Bauru/SP. Bolsista do programa de Iniciação Científica – IC/CNPq, no período de janeiro á julho de 2017, com projeto relacionado ao ensino de História e novas tecnologias. Colaborador voluntário no Projeto de Pesquisa PIBIC-EM/CNPq, relacionando às áreas de história da imprensa e história da ciência. Foi bolsista do Programa de Iniciação à Docência – PIBID/CAPES, no período de 2015/2016.

Marcio Lucas Moreira Rodrigues. Graduando em Licenciatura em História pela Universidade do Sagrado Coração – USC – Bauru/SP. bolsista do Programa de Iniciação à Docência – PIBID/CAPES. Colaborador voluntário no Projeto de Pesquisa PIBIC-EM/CNPq, relacionando às áreas de história da imprensa e história da ciência.

Maria Manuel Torrão é doutorada em História Moderna pela Universidade dos Açores. Investigadora Integrada do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa onde integra os grupos de investigação Building and Connecting Empires e Cultural Encounters and Intersecting Societies. Foi investigadora do Instituto de Investigação Científica Tropical entre 1987 e 2015, onde integrou a equipa luso-caboverdiana que elaborou o Projeto de História Geral de Cabo Verde durante cerca de 20 anos (1987-2007) colaborando em muitos outros projectos de cooperação com a Republica de Cabo Verde. Os seus interesses de pesquisa centram-se  em vertentes tão distintas como o tráfico de escravos entre Santiago e a América Espanhola, os agentes económicos que se movimentam nestes circuitos, a circulação de cultura material e imaterial, a cartografia histórica do arquipélago e mais recentemente em temáticas relacionadas com as expedições científicas às ilhas. Autora de variados artigos e capítulos de livros e, co-organizou muitos congressos e seminários internacionais e coordenou a edição de colectâneas documentais.

Maria João Soares. Investigadora Auxiliar do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sendo também docente na mesma universidade da disciplina de História de Cabo Verde. Integrou de 1993 a 2002, em conjunto com investigadores portugueses e caboverdianos o projecto História Geral de Cabo Verde. Em 2005 concluiu provas públicas sobre a temática da implantação e desenvolvimento da Igreja Católica em Cabo Verde, tema central da sua investigação, junto com a missionação e a sociedade. Investiga igualmente as temáticas das religiosidades, crioulização, etnicidade, elites, presença estrangeira e projectos reformistas no arquipelago de Cabo Verde. Os seus estudos cobrem a cronologia desde o descobrimento até finais do século XVIII.

Pedro Ernesto Miranda Rampazo. Graduando em Licenciatura em História pela Universidade do Sagrado Coração – USC – Bauru / SP. Colaborador voluntário no Projeto de Pesquisa PIBIC-EM / CNPq, relacionando as áreas de história da imprensa e história da ciência. Foi bolsista do Programa de Iniciação à Docência – PIBID / CAPES, no período de 2016.

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