P16 – Liberdade e censura no império colonial: o caso da imprensa periódica

24.05.2017, 09.00-10.20, Anfiteatro II, FLUL

Benjamin AbdalaUniversidade de São Paulo, Brasil

Resumo: O painel vota-se para a discussão de situações de censura em torno de eventos com conotações políticas, bem como as inclinações de autocensura diante do aparelho repressor, sob a ditadura salazarista. Em face da contestação mais geral desse sistema, ações políticas também se realizavam na metrópole, cujos gestos mantiveram correlações supranacionais com o que ocorria no conjunto do império colonial. Por outro lado, os influxos das novas hegemonias – que formalizaram na Carta das Nações Unidas, após a Segunda Grande Guerra, o princípio da autodeterminação dos povos -tornava problemática a manutenção dos antigos impérios coloniais, em suas formulações tradicionais.

Deverão ser analisados, assim, como objetivo central do painel, os níveis de abertura e fechamento nos periódicos coloniais e suas correlações com os da metrópole. Serão observadas questões relativas à recepção crítica e à divulgação, nessa imprensa, de livros (literários ou não), em especial os que foram objetos de censura e os que veicularam a ideologia de estado.  Serão ainda problematizadas as possíveis interlocuções ou contrastes dessa imprensa (colônias e metrópoles) com o que ocorria em outros impérios coloniais, em especial o da Grã-Bretanha.

Palavras-Chave: censura, autocensura, salazarismo e imprensa, literatura e política


1. Edvaldo A.Bergamo – Universidade de Brasília (UnB), Brasil

Jorge Amado e o Salazarismo: literatura, imprensa e censura

O romance social brasileiro de 1930 obteve incomum repercussão nos círculos neorrealistas de Portugal e nos círculos nacionalistas das colônias africanas lusófonas, notadamente em determinado prelo de orientação esquerdista/socialista do período, que fazia oposição a um regime político de configuração fascista e colonialista. Trata-se de campos intelectuais convergentes que reconheciam correlações no enquadramento dos dilemas enfrentados. A obra de Jorge Amado, especificamente, foi objeto de análise estética e ideológica no periodismo de resistência da metrópole, bem como no periodismo de extração nacionalista das colônias africanas, veículos nos quais a perseguição da censura salazarista pode ser observada em escalas diferentes. Nosso objetivo nessa comunicação é apresentar um estudo sobre a avaliação crítica da produção literária do romancista baiano na imprensa periódica neorrealista portuguesa, tanto quanto na imprensa periódica nacionalista de certas colônias africanas lusófonas, vulneráveis ao crivo da admoestação ditatorial por motivos notáveis distintos. Assim, textos exegéticos e/ou composições artísticas oferecem uma leitura receptiva cerrada da figuração do imaginário amadiano reconhecível em obras que dão a ver os impactos do subdesenvolvimento econômico, da modernização incompleta e dos conflitos sociais acirrados, aspectos contraditórios da formação histórica e cultural do Brasil, cujas incongruências principais atinentes à classe e à raça são faces da mesma problemática: a opressão exacerbada do trabalhador do campo e da cidade proporcionada por um sistema de superexploração caracterizado como capitalismo monopolista de ranço colonial.

Palavras-Chave: Jorge Amado, Salazarismo, ditadura, censura, imprensa, colonialismo


 2. Benjamin Abdala Junior – Universidade de São Paulo, Brasil

Liberdade e censura nos periódicos dos tempos coloniais, a partir de O signo da ira (Orlando da Costa) e de Luuanda (José Luandino Vieira)

A intervenção volta-se para a discussão da censura na ditadura salazarista, tendo em conta sobretudo dois eventos, cujas motivações ocorreram a partir do império colonial português: a publicação de O signo da ira e outros textos de Orlando da Costa; 2) a coletânea de contos Luuanda, de José Luandino Vieira, a atribuição do prêmio e o fechamento da Sociedade dos Escritores Portugueses. Serão analisados, nesse sentido, periódicos de Angola e Goa, bem como os da metrópole colonial, de maneira a caracterizar os sentidos da censura e autocensura subjacentes. No horizonte, procurar-se-á correlacionar com o que ocorria no conjunto do império colonial. De acordo ainda com o campo de pesquisa do painel, serão ainda observadas questões relativas à recepção crítica e à divulgação, nessa imprensa, de livros (literários ou não), em especial os que foram objetos de censura e os que veicularam a ideologia de estado.

Palavras-Chave: imprensa colonial, imprensa metropolitana, censura, autocensura, O signo da ira, Luuanda, recepção crítica


3. Filipa Sousa Lopes – FLUP-IHC, Portugal

“Fazer chegar até ao coração dos filhos de Portugal os anseios e as aspirações que fazem, palpitar o coração dos filhos da Índia”

Proponho-me através das páginas do jornal “”Bharat””, analisar o papel da imprensa periódica colonial nas eleições para Assembleia Nacional em 1945. Com a rendição da Alemanha ninguém admitia que Salazar pudesse resistir à derrocada do nazi-fascismo. A população acreditava no início de uma nova era: a da Liberdade. Sentindo os ventos de mudança, de democracia, que sopravam na Europa, o regime adaptava-se. A Lei Eleitoral foi modificada depois de aprovadas as emendas à Constituição relativamente à Assembleia Nacional e, a 7 de Outubro, Salazar anuncia a realização de eleições “tão livres como na livre Inglaterra”. Aproveitando o período que julgavam ser de uma possível mudança foram apresentadas no Estado Português da Índia, para além da lista União Nacional, quatro listas da oposição nas eleições para Assembleia Nacional de 1945. Com uma opinião pública controlada e manipulada, pela censura e forte propaganda, o jornal “”Bharat”” exteriorizava a sua vontade na realização de verdadeiras eleições. Não se afastando da sua linha editorial, o “”Bharat”” pretendeu informar de modo a clarificar os goeses como, atendendo ao tempo em questão e às alterações políticas na Índia, fomentar a construção do debate político sobre o futuro do Estado Português da Índia.

Palavras-Chave: Colónia, oposição, imprensa, liberdade


4. Sofia da Palma Rodrigues – CES, Portugal

Guerra Colonial: Que Jornalismo? Como o jornal O Século abordou o início do conflito ultramarino português

A presente apresentação tem como principal objectivo perceber como o jornal O Século tratou o início da Guerra Colonial Portuguesa no primeiro semestre de 1961, através da análise dos artigos publicados e censurados sobre Angola entre Janeiro e Junho de 1961. Num primeiro momento, será feita uma incursão sobres os principais debates do jornalismo de guerra, como era encarada a profissão de jornalista no Portugal da década de 60 e quem eram os profissionais da comunicação enviados para o palco do conflito, de modo a ter uma análise da profissão que nos permita fazer uma análise de discurso que leve em conta as suas características estruturais. Posteriormente, será feita uma análise da abordagem dos artigos publicados e censurados no jornal O Século. Por um lado, terá como base uma análise do discurso de todas as notícias publicadas no matutino no período e na geografia acima referidos; por outro, levar-se-á em conta a posição que estas ocupam no jornal de modo a que se possa inferir o seu grau de importância. Por último, tentar-se-á perceber quais as notícias censuradas no período homólogo e de que forma o seu papel era estruturante na construção da opinião pública.

Palavras-Chave: Angola, Estado Novo, Censura, Guerra Colonial, Imprensa, Jornalismo de Guerra, Opinião Pública, Jornal O Século


BIOGRAFIAS


Benjamin Abdala Junior, pesquisador do CNPq, é Prof. Titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Exerceu cargos de representação no CNPq, Capes e associações científicas; foi coordenador de séries editoriais e de chefias acadêmicas em sua instituição. Publicou 47 títulos de livros (autorais, coletâneas críticas e antologias), entre eles A escrita neorrealista; Literatura, história e política; e Literatura comparada e reflexões comunitárias, hoje.

Edvaldo A. Bergamo realizou Pós-Doutoramento (CAPES) na Universidade de Lisboa (FLUL/CeSA) no período 2014-2015. Possui Graduação, Mestrado e Doutorado em Letras pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). É professor da Universidade de Brasília (UnB). Co-organizou Angola e as angolanas: memória, sociedade e cultura (2016) e África contemporânea em cena: perspectivas interdisciplinares (2015). Investigação atual: romance e autoritarismo; romance, colonialismo e pós-colonialismo.

Filipa Sousa Lopes. Docente de História do Ensino Básico e Secundário. Mestre em História das Instituições e Cultura Moderna e Contemporânea, pela Universidade do Minho, com a dissertação A Oposição à Ditadura no concelho de Vila Nova de Famalicão. Aluna do doutoramento em História, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com o projeto intitulado As vozes da oposição ao Estado Novo e a questão de Goa (1950-1961). Desenvolve pesquisas na área do Estado Novo, oposições bem como descolonização e lutas de libertação.

Sofia da Palma Rodrigues é estudante de Doutoramento no programa “Pós-colonialismo e Cidadania Global” do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. É licenciada e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. É reporter freelance e, nos últimos dez anos, tem publicado em diversos meios de comunicação, principalmente sobre tópicos relacionados aos Direitos humanos e ao colonialismo em África.

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