P17 – A questão linguística na imprensa colonial

22.05.2017, 16.00-17.20, Auditório 2, Torre B, FCSH-UNL

Helder Garmes – USP, Brasil

Cielo Festino – Universidade Paulista, São Paulo, Brasil

Resumo: O plurilinguismo é constitutivo das sociedades colonizadas, uma vez que há ali um trânsito conflituoso entre as línguas locais e as línguas europeias, introduzidas pelo colonialismo. Essa diversidade é responsável pela complexidade linguística das colônias e ex-colônias. Se, por um lado, a língua do colonizador atua no sentido de deslocar as línguas locais do centro de poder e de autoridade da cultura, por outro, acaba por sofrer influência dessas línguas, transformando-se significativamente. As línguas locais tornam-se focos de resistência, sendo que seus falantes agem em duas frentes: procuram se impor sobre a língua do colonizador, ao mesmo tempo que buscam se apropriar daquela língua para se tornarem visíveis para além das fronteiras nacionais. No espaço colonial as línguas não são empregadas como unidades separadas, pois estão profundamente imbricadas. Histórias contadas em uma língua são complementadas ou contestadas quando narradas em outra, assim como determinados contextos exigem que se fale uma ou outra língua, pressionado para que todos dominem todas elas. Assim, as línguas acabam se entrelaçando de forma agônica e antagônica, constituindo-se a matriz sociolinguística da sociedades colonizadas. Esse processo acaba revelando que colonizadores e colonizados, concomitantemente, são parte de mais de um discurso linguístico, político, histórico e cultural. No entanto, a hierarquia linguística estabelecida pelo colonizador tende a manter-se em vigor. Falar, então, da imprensa colonial sem se submeter a essa hierarquia significa não reconhecer apenas a produção na língua do colonizador, mas também aquela existente nas línguas dos colonizados, assim como contemplar as manifestações híbridas presentes entre tais produções. Para discutir essa temática, o presente painel privilegia a apresentação e discussão de diferentes formas de periódicos e jornais, manuscritos ou impressos, nas diferentes línguas das ex-colônias, quer sejam de cunho político, cultural, social, oficial ou clandestino, como assim também a relação palimpsêstica entre todos eles na sua luta pela supremacia cultural e política.

Palavras-Chave: plurilinguismo, imprensa colonial, jornais, periódicos


1. Lisa Kuitert – Universiteit van Amsterdam, Holanda  

Tradução e censura nas Índias orientais holandesas

A tradução pode ser vista como uma ferramenta útil, no sentido de que permite a comunicação e fornece uma melhor compreensão. Nesta comunicação quero apresentar uma visão diferente sobre o ato de traduzir, no que diz respeito às Índias Orientais holandesas. Nesta antiga colônia holandesa, as chamadas Índias Orientais Holandesas (hoje Indonésia), os jornais do século XIX surgiram primeiro em holandês, mas na segunda metade do século também em malaio e chinês-malaio (Termorshuizen, 2001). A administração colonial falava e lia somente holandês. Foram  empregados apenas alguns intérpretes, por isso foi difícil descobrir o que estava acontecendo na sociedade local. Esta situação agudizou-se quando a população local ficou cada vez mais descontente e o número de jornais aumentou. Depois de 1900 o governo adotou novas iniciativas (Kuitert 2016). Uma delas foi a seção na revista dos oficiais, “Koloniaal Tijdschrift” (colonial magazine), intitulada “da imprensa indígena”. A seção  forneceu aos administradores um vislumbre do que estava acontecendo nas comunidades locais, através de resumos de imprensa. Mas apenas alguns dos artigos foram traduzidos. Então, a questão é a seguinte: que tipo de artigos eram traduzidos? E quais notícias permaneciam não traduzidas? Quem eram os tradutores e quais os critérios utilizados?

Palavras-Chave: tradução, jornais, censura, Índias orientais holandesas


2. Dale Luis Menezes – Centre for Historical Studies, JNU, New Delhi

Notícias globais, imprensa vernácula: um estudo das ideias políticas na Índia portuguesa moderna (1880-1975)

A cultura impressa da Índia portuguesa existiu em diversas línguas, como o português, o marathi, o inglês, o Nagri Konkani e o Romi Concanim. Estes jornais são uma fonte de construção da história intelectual dos impérios modernos. Nos últimos tempos a cultura impressa tem vindo a receber atenção por parte de estudiosos como Rochelle Pinto e Sandra Ataíde Lobo, que trabalham sobre a produção intelectual das elites goesas. No entanto, não sabemos muito sobre os subalternos, a classe trabalhadora da sociedade goesa. O modo como essas publicações em várias línguas abordaram notícias e eventos de todo o mundo e o modo como selecionaram as notícias de acordo com as suas tendências ideológicas e políticas e a sua localização dentro dos impérios, indicam também de que forma a política foi negociada dentro do cenário do império português. Este estudo propõe focar três jornais, a saber: o semanário “Ave Maria” em Romi Concanim; o semanário bilíngue em Romi Concanim e Português “Porjecho Adar”; e o semanário “Bharat” em língua marata. Reunindo diferentes notícias em várias línguas, é possível analisar-se o “global” e o “local” através da reportagem de notícias, e do modo como estas notícias foram consumidas e debatidas. Focar as notícias globais tal como foram relatadas na imprensa local ou na imprensa vernácula, irá ajudar-nos a entender as ideias intelectuais com as quais os atores “locais” se engajaram ou se envolveram.

Palavras-Chave: Imprensa, Goa, Índia portuguesa, Concanim, Marathi


3. Kaustubh Naik – Independent Researcher, Nova Delhi, India

Navegando na ambivalência – Bharat e os hindus da Goa portuguesa

O fim da monarquia constitucional em Portugal e a subsequente transição para a República em 1910 é um momento crítico na história da Goa portuguesa, já que se concedia direito de voto aos hindus goeses na administração do Estado, ainda que de forma restrita. Entre outras implicações deste momento, percebidas como um passo em direção à liberdade, houve o aumento da impressão e circulação de periódicos em língua marata em Goa pós-1910. Os periódicos marathi em Goa foram considerados como símbolos da inércia cultural dos hindus goeses, que se defendiam da chamada “ocidentalização”. Estes periódicos, posteriores a 1910, emergiram como locais representativos dos esforços das comunidades hindus de Goa que estavam a reposicionar-se no futuro político ambivalente que surgiu durante a primeira metade do século XX em Goa. Como exemplo ilustrativo para esta observação, este trabalho incidirá sobre os escritos publicados em “Bharat”, o mais antigo periódico multilíngue (1912-1949) publicado na Goa Portuguesa. Através da análise crítica destes escritos, este trabalho procura colocar em primeiro plano o modo como as comunidades hindus de Goa mediavam os discursos nacionalistas indianos originários da Índia britânica enquanto simultaneamente lutavam com a autonomia da República Portuguesa.

Palavras-Chave: Marathi, imprensa vernácula, esfera pública, Nacionalismo


4. Priyanka Vithoba Velip – Assistant Professor in Sociology, Government College of Arts, Commerce and Science, Quepem- Goa (Affiliated to Goa University), Goa, India 

Construindo as margens através da imprensa na Goa marginal:  relendo “Dudhsagar” da época colonial

A presente comunicação centra-se nas margens do império colonial. De que modo a imprensa colonial esteve envolvida na constução das margens?

A comunicação centrar-se-á na leitura do periódico semestral Marathi “Dudhsagar” de 1954 a 1960. Tal como a Índia celebrou a liberdade da dominação britânica, a elite local goesa usou a imprensa para elaborar as suas ambições patrióticas. Iniciado por um Saraswat (uma casta superior) o objetivo de “Dudhsagar” foi reformar ou regenerar as comunidades hindus, com atenção especial para os sujeitos marginalizados, enquanto que grande parte da  comunidade católica olhava para e se inspirava no Ocidente. A comunidade hindu tentou beber da rica herança cultural e intelectual da Índia, como indicado no “Dhudhsagar”. Esta elite hindu tentava regenerar-se num contexto em mudança e, ao fazê-lo, também tentava replicar o seu domínio. A língua marata foi usada enquanto língua contra-hegemónica, sendo o seu uso orientado por uma perspetiva religiosa, como demostra o periódico em análise. A imprensa, portanto, fazia parte de um processo de remodelação do Oriente e do Ocidente. A revista mostra como a comunidade hindu negociou entre a construção de uma herança cultural indígena e a imposição da cultura imperial lusófona. A discussão também examinará o que foi definido de “mal social”, considerado em detrimento dos direitos humanos básicos.

Palavras-Chave: Império português, Goa, margens


BIOGRAFIAS


Cielo Festino é doutora na área de literaturas de língua inglesa pela Universidade de São Paulo, Brasil. Também fez um programa de pós-doutorado sobre ensino de literatura na Universidade de São Paulo (2007-2009/FAPESP) e um segundo pós-doutorado sobre os gêneros na literatura pós-colonial na Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte Brasil (2010-2012). Neste momento é professora de literaturas de língua inglesa na Universidade Paulista, São Paulo, Brasil e professora colaboradora do programa de Mestrado da Universidade Federal de Tocantins. É membro do projeto temático “Pensando Goa. Uma Biblioteca Singular em Língua Portuguesa” (USP/FAPESP). Tem várias publicações na área de literatura indiana de língua inglesa e nas línguas bhashas.

Dale Luis Menezes é investigador com o grau de “Master of Philosophy junto do Centre for Historical Studies, Jawaharlal Nehru University, New Delhi. Os seus principais tópicos de investigação são a produção de conhecimento, as histórias intelectuais e os impérios, com foco especial na época moderna dos impérios português, holandês e britânico no Oceano Índico. Escreve sobre assuntos de interesse público nas suas colunas na imprensa goesa, e outros textos.

Helder Garmes 

Kaustubh Naik é mestre em Estudos de Performance pela School of Culture and Creative Expressions, Ambedkar University Delhi. Foi distinguido com uma bolsa de investigação D.D. Kosambi (2016-2018) pelo Governo de Goa, Directorate of Art and Culture. A sua pesquisa atual foca a evolução da esfera pública Marathi no período da dominação portuguesa em Goa. É autor de uma coluna quinzenal no jornal ‘The Goan Everyday’ sobre questões políticas e culturais em Goa.

Lisa Kuitert é professora titular em Book Studies na Universidade de Amsterdão. A sua investigação foca as práticas de publicação nos séculos XIX e XX. Atualmente, desenvolve pesquisa sobre o Mercado dos livros nas chamadas “Índias Orientais Holandesas” (Indonésia).  É editor da revista científica Quaerendo. A Journal Devoted to Manuscripts and Printed Books. (Brill Publishers).

Priyanka Vithoba Velip é Professora auxiliar de Sociologia no Government College of Arts, Science and Commerce, Quepem-Goa e doutoranda em Women’s Studies na Universidade de Goa. Empenhada na sensibilizaçao comunitária, representa uma voz interna das comunidades tribais de Goa.

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