Dicionário cronológico da imprensa periódica de Macau (1822-1900) Apresentação do livro

25.05.2017, 15.30-15.50, Biblioteca Nacional de Portugal

Daniel Pires. Dicionário cronológico da imprensa periódica de Macau. Instituto Cultural de Macau, 2016

­A imprensa é uma fonte histórica inesgotável e relevante. É nela que melhor podemos ter acesso ao pulsar quotidiano da sociedade, ao seu tecido político, económico, social e cultural. A sua consulta permite-nos aferir igualmente mentalidades, valores, modas. O conteúdo da maior parte das publicações analisadas neste dicionário é desconhecido. O seu estudo poderá contribuir para a reavaliação de determinados assuntos, porquanto traz à colação elementos marcantes da história do território. A especificidade do estatuto de Macau configurou uma imprensa com características peculiares. A presente obra analisa, descreve, inventaria e localiza todos os periódicos macaenses publicados no século XIX.

Este dicionário é o corolário de uma investigação feita em bibliotecas, arquivos, universidades e em colecções particulares macaenses e portuguesas. Tal pesquisa permitiu revelar documentos inéditos de vulto, que os arquivos guardam ciosamente. No domínio da política, desfilam pelas suas páginas assuntos diversificados como o relacionamento entre a comunidade chinesa e a portuguesa, o confronto entre os jornalistas mais críticos e a censura – o qual foi por vezes dirimido em tribunal, ou teve como epílogo a repressão cega –, as duas Guerras do Ópio, a génese e a evolução da cidade de Hong Kong, a interacção de Macau com as autoridades de Goa e da metrópole, a criação de jornais com o objectivo expresso de eleger pessoas para cargos de natureza oficial, a opção tardia de tornar Macau um porto franco e a questão dos coolies. No âmbito da economia, somos confrontados, por exemplo, com a legislação em vigor, as mercadorias que se importavam e exportavam e os respectivos preços, as reivindicações dos agentes comerciais, o aparecimento das instituições de crédito e das companhias de seguros. Notícias de carácter cultural são frequentes em todos os jornais: a literatura e a linguística com os seus expoentes máximos – entre os quais se encontram Camões, Camilo Pessanha, Wenceslau de Moraes, Robert Morrison, Samuel Wells Williams –, os meandros complexos da filosofia e da etnografia chinesa, o teatro, a música, a arte, a história de Macau, da China e de Portugal, a religião, as ciências exactas, a instrução, as múltiplas metamorfoses da indústria tipográfica, entre outros assuntos.

Uma palavra ainda para alguns títulos mais notórios, que, considerando o seu universalismo e o seu carácter inovador, constam dos anais macaenses: o primeiro jornal, A Abelha da China, um documento relevante para a compreensão da luta feroz entre progressistas e conservadores; O Português na China, o primeiro periódico que deu á estampa imagens; o Ta-ssi-yang-kuo, que enfatizou quer a cultura chinesa, quer a portuguesa; o Eco Macaense, publicado simultaneamente em chinês e em português, que teve como colaborador o então médico e futuro presidente da república chinesa Sun-Yat-Sen.

Finalmente destacamos nesta obra a análise dos jornais de língua inglesa, extremamente raros, que se publicaram alternadamente em Macau, Hong Kong e Cantão: The Canton Register, The Canton Miscellany, The Chinese Courier and Canton Gazette, The Evangelist and Miscellanea Sinica e The Canton Press.


Daniel Pires é licenciado em Filologia Germânica e doutorado em Cultura Portuguesa, foi professor cooperante na República de S. Tomé e Príncipe e em Moçambique e leccionou português nas Universidades de Glasgow, Macau, Cantão e Goa. É autor de, entre outras, as seguintes obras: Dicionário de Imprensa Literária Portuguesa do Século XX, Dicionário da Imprensa Macaense do Século XIX, Bocage a Imagem e o Verbo, Fotobiografia de Camilo Pessanha, Wenceslau de Moraes: Permanências e Errâncias no Japão, Correspondência de Camilo Pessanha, O Marquês de Pombal, o Padre Malagrida e o Terramoto de 1755 e Padre Malagrida, o Último Condenado ao Fogo da Inquisição. Editou a obra completa de Bocage em 5 volumes e a Clepsidra de Camilo Pessanha. Comissariou várias exposições. Faz parte da comissão das comemorações dos 250 anos do nascimento de Bocage. Dirige o Centro de Estudos Bocageanos desde a sua fundação, em 1999.

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